Por Martiniano J. Silva
Assim como o beijo, o costume de beijar é mais antigo do que se possa imaginar, embora nem sempre sirva para demonstrar o mesmo grau de afeto ou consideração. Os beijos mais antigos que se conhecem são os que se constituem em saudações correntes às estátuas dos ídolos e às pessoas a quem se pretendia prestar homenagens respeitosas. Beijar na boca era coisa rara. A maior parte das vezes beijava-se a barba, os cabelos, a face, os olhos. Na mais remota antiguidade, era assim que o vassalo rendia homenagem ao seu suserano. Os gregos chegaram a possuir uma lei que proibia os homens de beijarem em público as suas mulheres, e os mais ousados estavam sujeitos à pena de morte. No Oriente, conservou-se o costume de beijar a mão, os joelhos ou mesmo os pés, sabendo-se que os reis da Pérsia não concediam este favor a toda gente.
Os primitivos romanos eram partidários do beijo e com ele selavam seus contratos núpcias. Os cristãos dos primeiros tempos escolheram-no para as saudações. No ano 397, porém, uma conferência reunida em Cartago proibiu esta forma de saudação entre pessoas de sexos diferentes. A Bíblia, aliás, está cheia de beijos, das mais diversas espécies, desde o beijo traidor de Judas à terna saudação de Jacó a Raquel. A Igreja Católica, por sua vez, em que pese uma série de modificações em seu ritual, principalmente durante as missas, dá ainda um lugar especial ao beijo nas suas cerimônias. Quem é que não conhece o clássico beijo “de anel” dos bispos?
Em reminiscência das recomendações de São Paulo para que os fieis se saudassem com beijos santos (osculo santum), os ritos modernos distinguem ainda o beijo do altar, o beijo da paz, o beijo do anel, da mão e dos pés. O primeiro, como sabemos, continua sendo celebrado na missa. O beijo da paz é aquele que, desde os tempos apostólicos, os cristãos trocavam, durante a missa, em sinal de união e de caridade. Hoje, esse beijo, durante a missa, é um amistoso e cordial, mas caloroso aperto de mão, só raramente seguido de algumas “bicotas” entre casais, filhos, noivos, namorados e demais presentes. Seria bom que os padres insistissem, explicando ao povo da importância desse aperto de mão durante a missa, representando e simbolizando o beijo de antigamente. Após o Papa Francisco, todos estes atos estão mais calorosos.
Durante o primeiro século da Era Cristã, os homens beijavam-se entre si e as mulheres também porque homens e mulheres não estavam juntos durante as cerimônias religiosas. O beijo era então dado na boca e ainda acompanhado da energia do abraço, dividido em vários tipos, às vezes demorados, ora de tempo breve, de que ainda falarei. Só mais tarde é que esse costume foi substituído pelo de se tocarem entre si com a face. A partir do século XIII tal costume foi abolido para os leigos, que se contentavam em beijar o mesmo crucifixo ou placa de metal contendo relíquias sagradas. Hoje, os eclesiásticos dão ainda o beijo da comunhão, dizendo: “Corpo de Cristo, amém”. E os fieis beijam o anel dos bispos quando estes concedem a sua benção. Durante muito tempo, os cardeais conservaram o direito de beijar as rainhas na boca, especialmente na Espanha. Nos tempos de Henrique VIII, nenhuma dama ousaria despedir-se do seu par de baile sem recompensá-lo com um beijo, costume que não poderia ter acabado, que por certo era um beijo afetuoso e cortês, polido e doce.
A guisa de ilustrar, registro o costume de abraçar, amplexo ou abraçamento, no qual, não raro necessário e indispensável, como no costume de beijar, continua mantendo inegáveis fingimentos, ensejando mais beijos, selinhos, bicotas, toquinhos nas costas, mais vezes também fingidos, até o dia em que erradicaremos nossa crônica hipocrisia. Sem adentrar-me nos conteúdos e detalhes do que não sou versado, lembro somente o abraço chamado “tipo padrão” que, segundo a jornalista Nayara Reis, desse Diário (caderno Cidades,09/10/2013), é o que envolve os ombros, os lados da cabeça apertados num contra o outro, e os corpos inclinados para frente sem se tocar absolutamente abaixo do nível dos ombros. O tempo gasto neste tipo de abraço normalmente é breve , uma vez que significa quase sempre “olá” ou “até logo”.
Num país onde nem o abraço consegue se salvar dos preconceitos, é de se pensar no que acontece com o denominado “beijo gay”; notando-se grande repercussão social e o que ainda ocorre com o estranho “beijo lésbico”, em novelas, por exemplo, onde ainda é mais surpreendente o choque é maior, grande frisson, ainda causando mais preconceitos que, de tão fortes e mais vezes anacrônicos, levam as pessoas a confundir um oportuno “beijo artístico” de duas atrizes consagradas da televisão brasileira com o comportamento excessivamente tradicionalista e retrógado, de certos segmentos sociais hipoteticamente religiosos que prosseguem “achando que esses ‘beijos’ ainda teriam (…) o poder de destruir as famílias brasileiras”. Decerto esses moralistas de plantão algum dia descobrirão que “achologia” não é ciência.
Vejam que os cardeais continuam beijando a mão do papa quando da eleição deste. O papa João Paulo II, por exemplo, ao que estou informado, não visitou nenhum país do mundo sem beijar a nova terra logo que descia do avião, ali manifestando a forma mais carinhosa de abençoar o novo país. O argentino Adolfo Perez Esquivel, prêmio Nobel da Paz (1980), não se cansou de beijar, especialmente as crianças pobres, em uma visita que fez ao Brasil? Santo Caio, que ocupou o trono pontifício antigamente (em 238), foi o primeiro papa de que narra a história a receber homenagens dos cristãos com beijos n os pés, de maneira formal e reverenciosa. No lava-pés, durante a Semana Santa, os bispos prosseguem beijando os pés dos fieis católicos. A missa, continua, pois, cheia de beijos, inclusive nas cerimônia de casamento e outras mais.
Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado, MNU, da Academia Goiana de Letras, IHG-GO, UBE-GO, AGI, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM (martinianojsilva@yahoo.com.br)
Fonte: Diário da Manhã
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