O coração da gente é onde moram os que vivem para sempre.

E se aquele avião não tivesse caído? Se o pouso fosse tranquilo, os passageiros voltassem para casa, a vida seguisse sem mais?

Se o caminhão não perdesse o controle no asfalto molhado, não saísse de sua pista. Se os carros na mão contrária seguissem seu percurso sem percalço e chegassem a seu destino sem surpresa.

Se a notícia indesejada não viesse e o amigo querido estivesse ainda aqui, trabalhando, vivendo, pagando as contas, fazendo das suas, pensando na gente, habitando este mundo como qualquer um de nós.

Se a criança vingasse na barriga da mãe e hoje corresse pela casa, fazendo graça, puxando o rabo do gato, evitando a hora de dormir.

Se o homem bom não saísse de casa no mesmo instante em que uma alma perdida decidiu sair por aí disparando sua arma. Se a velha senhora não atravessasse a rua na frente de um carro apressado, chegasse ao mercado e voltasse à casa em tempo de fazer sua sopa, cujo aroma aqueceria a alma de uma vizinha que chora sua solidão.

Se a tarde não tivesse acabado, a festa não tivesse passado, a manhã não findasse tão cedo, a noite não amanhecesse tão rápido.

E se aquela moça linda se salvasse do mal que a levou de repente, e acordasse na cama do hospital sem entender nada, varada de fome, sob o olhar de apreensão e ternura da família que a esperava rezando, agarrada com força à sua fé.

Sua gente a olharia tão cheia de amor, diria “que susto!” mal vendo a hora de voltar todo mundo para casa, tocar a vida em frente. E seria uma tardinha linda, de brisa mansa ventando esperança. A vida sorrindo como criança que brinca num parquinho, girando, girando…

Dói. E não fosse o coração da gente, generoso, aberto, abrigando tanta coisa e tanta gente que passou, doía muito mais. Ahh… doía, sim.

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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