O ciúme nasce da falha de confiança

Por que, quando se ama, é praticamente impossível não sentir ciúme? As pessoas enxergam seus pares afetivos como sua propriedade privada, tanto que não se envergonham em usar pronome possessivo para se referir a eles. “Minha namorada”, “meu irmão”, “minha esposa”, e assim vai. Não veem problema algum nisso.

Em qualquer relacionamento respeitável existem regras e elas devem ser seguidas, caso contrário não há base para se estabelecer a confiança. O ciúme se origina da percepção de que a pessoa amada irá embora por algum motivo especial ou mesmo por nenhum motivo.

Se não houver absolutamente nada de ciúme no amor, isso só demonstra uma coisa: que ambos os parceiros não se preocupam um com o outro. Certo nível de ciúme é saudável; pessoas que não sentem ciúme são tolas ou descuidadas. Elas vivem em um mundo competitivo, mesmo que não se sintam como jogadoras. Depois de um certo limite, o ciúme se transforma em possessão, e não assusta a quantidade de problemas que surgem devido ao fato de se ter o outro como posse.

A invisibilidade do ciúme deixa as pessoas tranquilas, mas não significa que elas não sintam receio da possibilidade de seu relacionamento acabar. Tudo tem começo, meio e fim, mas é muito difícil aceitar esse fato sobre as coisas que mais agradam ao coração.

O ciúme infundado mata o amor. Ninguém consegue resistir a um relacionamento sob enorme quantidade de pressão e cobrança. Agora, se o ciúme tem fundamento, então houve uma falha de confiança, e todos os casais, principalmente os mais maduros, sabem que uma pequena ruptura de confiança, dependendo de sua gravidade, é capaz de destruir um amor de décadas de duração.

Uma boa reputação leva anos para ser construída, exige esforço e paciência, enquanto uma má reputação pode ser criada em um único dia. Ser confiável é uma arte das pessoas que sabem o que querem, têm consciência do valor de quem está ao seu lado, corrigem suas falhas de cabeça erguida, e não alimentam dúvidas sobre seus relacionamentos.

Uma pessoa enciumada só pensa no futuro, mas não age progressivamente; ela está preocupada com a integridade de sua relação, mas não consegue pensar diretamente no seu aperfeiçoamento.

A maioria das pessoas não conversa abertamente sobre ciúme, pois há um tabu enorme envolvendo esse sentimento. Muitas vezes, o ciumento sente vergonha de compartilhar suas angústias, até com as pessoas mais próximas.

Experiências traumáticas de infidelidade precoce aumentam o grau de vigilância em relacionamentos posteriores, pois há uma sensação de que o pior pode acontecer novamente. Esse tipo de pessimismo é muito comum até em pessoas mais velhas e altamente comprometidas com seus parceiros. Logo que surgem sinais de transgressão de fidelidade, há uma intervenção. Adota-se, em consequência disso, uma atitude ofensiva perante o outro, que passa a ser atacado em decorrência de alguma atitude suspeita.

Quando se está sequestrado pelo ciúme, os sentimentos negativos são tratados como fatos comprovados, embora essa não seja uma garantia confiável. “Por que isso está acontecendo comigo?” e “O que eu fiz de errado?” são as duas perguntas mais comuns em alguém que esteja passando por uma crise de ciúme. Às vezes, o enciumado está enxergando aquilo que é real, mas ele deve apoiar-se em evidências irrefutáveis para ter certeza disso, antes de tirar conclusões.

O principal motivo de ciúme é sexual. A traição de transar com outras pessoas representa uma razão suficiente para um relacionamento nunca mais ser o mesmo, ou não ser mais. Sexo é sagrado, requer uma conexão emocional não tão facilmente desenvolvida e, quando se imagina o parceiro com outra pessoa na cama, isso gera muita aflição. Mas a traição, mesmo a sexual, começa nos pequenos atos. Um deslize aqui, uma conduta precipitada acolá. Essas coisas devem ser repreendidas e resolvidas com boa comunicação. Pessoas que se comunicam verdadeiramente sobre seus sentimentos conseguem controlar melhor as consequências de suas ações, e ainda podem moldá-las efetivamente para que o laço afetivo permaneça forte. Claro, existem segredos individuais que não seriam relevados nem sob os piores tipos de tortura: algumas coisas é melhor manter guardadas.

Uma coisa fundamental a ser feita é impor limites, sem pressionar o outro. Há um certo nível de tolerância para o que é aceitável (e passível de resolução) e o que é inaceitável (passível de término do relacionamento). Esses limites devem ser praticados. Muitas pessoas, ao ficarem sabendo que seu parceiro as traiu, perdoam, inclusive quando a traição é recorrente. Nesses casos, falta a autoridade da palavra e prevalece o medo da solidão. Mas não há solidão pior do que ter ao lado uma má companhia. Deve-se ser realista e pontual quanto a essas decisões.

Até que ponto o ciúme é normal? Para responder a essa pergunta, é necessário ter em mente todos os riscos que envolvem o relacionamento, de modo que se possa saber exatamente o que cada um tem a perder se não seguir as regras do seu. A partir do conhecimento do que a solidão acarreta, tem-se um estímulo suficiente para agir em prol da estabilidade da relação. Todos que amam sentem ciúme, mas apenas os paranoicos sofrem mais do que o necessário.

Os ciumentos estão sempre desconfiando de algo. Eles passam a investigar a vida da pessoa amada, muitas vezes invadindo sua privacidade. Querem ter a certeza absoluta de que não há ameaças internas ou externas. Porém, quanto mais se desconfia, mais problemas se atrai, mesmo num cenário em que realmente não exista nenhum. A tendência de procurar alguma coisa errada gera um ciclo vicioso de monitoramento e repressão, inclusive nos casos em que a pessoa já se explicou sobre questões mal resolvidas do passado.

A segurança de um relacionamento é fruto da maturidade e de inteligência emocional. Mas maturidade e inteligência emocional não ocorrem em um evento, mas como processo gradual ininterrupto. Da mesma forma que uma pessoa de 80 anos pode se comportar de forma mais infantil que um jovem de 20, dependendo do caso, é possível haver inadequada infantilidade em um relacionamento maduro. Isso é até normal, pois ninguém nasce (nem morre) pronto. Mas é anormal não saber identificar um problema causado por um comportamento imaturo.

Ciúme é o desejo de controle sobre sentimentos, percepções e escolhas do parceiro afetivo. Ele faz gerar ideias obsessivas em relação à possibilidade de infidelidade.

Em toda relação há um calcanhar de Aquiles, um ponto fraco que, se não cuidado, acarreta em colapso. Mas toda relação praticada com respeito e confiança se torna inabalável, pois basta duas pessoas quererem amar e agirem conforme sua vontade de amor para que o ciúme perca sua validez. Isso não leva a crer que não haverá mais ameaças, e sim que elas serão neutralizadas caso apareçam. É essa sensação de segurança que se deseja. O verdadeiro amor supera tudo e, se for devidamente conscientizado, o fogo de destruição do ciúme não ousará abalar a sua integridade.

O escritor humanista Michel de Montaigne assim refletiu:

“De todas as enfermidades que acometem o espírito, o ciúme é aquela para a qual tudo serve de alimento e nada serve de remédio.

Um ciumento convencido é mais difícil de lidar do que um ciumento duvidoso. O que se pretende é evitar todo tipo de paranoia relacionada à necessidade de controle do outro. Ninguém controla ninguém, embora alguns se esforcem em benefício da passividade ou se deixem vencer por circunstâncias desvantajosas. A melhor forma de saber se o ciúme não causará dano algum na relação é lutando, dia a dia, para manter a chama do amor acesa.

Há sempre aqueles que sentem ciúme por coisas estúpidas, principalmente entre os apaixonados. Muitas pessoas acreditam que o ciúme é evidência do amor. Não. O ciúme é evidência de desconfiança no amor. O que cai bem é cuidar da própria vida, em comunhão com o outro, sem se deixar abalar por problemas convencionais. Sem o sentimento de confiança, a pessoa se sente vulnerável à realidade cotidiana e pode enfrentar grandes dissabores, mas está com ela, e com seu parceiro, a responsabilidade por readquirir uma sensação de segurança que, depois de reavida, torna-se mais forte do que antes.

O ciúme, se não controlado, cresce espontaneamente. O amor, se praticado com verdade, mantém o ciúme em um nível seguro, à margem de discussões. Ao não se deixar o ciúme ultrapassar o limite do bom senso, as recompensas surgem naturalmente para o estreitamento de um laço afetivo.

Uma pesquisa de 2008, publicada no Journal Of Couple And Relationship Therapy, revelou alguns traços específicos de quem sente ciúme crônico:

1) Baixa autoestima;

2) Neuroticismo, a tendência geral de ser temperamental, agressivo e emocionalmente instável;

3) Apego ansioso, um estilo que envolve o medo de que o parceiro termine a relação;

4) Percepção de inadequação, de que não se é bom o bastante;

5) Sentimentos de insegurança e possessividade;

6) Dependência do parceiro.

Uma pessoa deve saber que, se ela não fez nada de errado, e se, ainda assim, seu parceiro sente ciúme, isso é sobre ele. Tudo que ela pode fazer é responder às dúvidas e suspeitas para tranquilizá-lo. Se o ciúme permanecer, isso reflete alguns ou todos os traços acima mencionados.

Uma boa maneira de amenizar os efeitos devastadores do ciúme é conversando abertamente sobre os problemas que geram esse sentimento incômodo. A forma como se comunica é decisiva para resolução ou continuação do impasse. Se a pessoa se explicar com sarcasmo, o ciúme do parceiro se transformará em ódio. Se a pessoa se explicar com sinceridade, o ciúme do parceiro tenderá a ser dissipado. Contra a insegurança, as pessoas devem ser diretas, sem usarem de hostilidade; e sucintas, sem omitirem informações importantes.

Às vezes, o ciúme é justificado, e isso é um problema grave. Talvez a relação seja afetada de um modo que o problema, mesmo sanado, perturbe a mente dos envolvidos para sempre, como um fantasma incansável. Boas estratégias de comunicação são imprescindíveis para que o ciúme seja eliminado ou, ao menos, neutralizado, até que uma solução paire.

Alguns imprudentes acham que, quando há um rival interessado em sua parceira, ela se torna, por isso, mais atraente. Na verdade, o fato de haver um rival está fora de controle, e isso acontece muito, mesmo que secretamente. O que funciona é valorizar a amada de tal modo que ela não pense em trocá-lo por nenhum outro indivíduo existente na Terra. Um amor assíduo é valioso demais para ser desperdiçado com as tentações de um ego que quer ser aumentado pela apreciação de outrem. Quem ama, cuida e valoriza de verdade não sente medo de perder, pois sabe que está fazendo tudo a seu alcance para manter a saúde do relacionamento, e que, apesar das desavenças e acidentes de percurso, continuará ali, sem exigir em troca nada mais que a existência da pessoa amada. Uma mulher seria louca de trocar um homem que a trata como única rainha, e um homem seria insano de trocar uma mulher que o trata como rei na presença de tantos outros.

Se a pessoa estiver com ciúme porque descobriu que seu parceiro a traiu, talvez seja melhor procurar outro alguém com quem se compartilhe expectativas, objetivos e condições de relacionamento equânimes. Mas, quando o ciúme é sobre coisas estúpidas, isso não quer dizer nada sobre o amor sentido, e sim sobre as próprias inseguranças. Na opinião de François de la Rochefoucauld, escritor francês:

“Ciúme é muito mais amor próprio ferido do que amor verdadeiro.”

A consciência de saber que a pessoa amada se sente atraída por outro desencadeia uma onda de sentimentos tão ardilosos que, a mais das vezes, é preferível negar a sua existência.

O ciúme é um sentimento universal. Se as pessoas ouvirem-no claramente, podem melhorar seu relacionamento, em vez de deixarem esse sentimento provocar uma separação. Ao quererem aperfeiçoar suas vidas românticas e sexuais, da prática do amor verdadeiro entenderão como manter o ciúme silenciado e fora de cogitação.

Não há preço para o amor recíproco. As pessoas não deveriam pôr tudo a perder com comportamentos impulsivos e decisões imediatistas. Um homem que vai à balada sem a namorada e acaba ficando com outra pessoa, por exemplo, provavelmente não tem discernimento de que está colocando tudo a perder, e de como sua insensatez o prejudicará no futuro. Quantidade não substitui qualidade no amor, sob nenhuma circunstância, mas as pessoas demoram a aprender essa máxima. Elas costumam sofrer muito antes disso.

Uma razão pela qual é complicado admitir ciúme é que isso leva a um desequilíbrio de poder no relacionamento. As pessoas tendem a suprimir manifestações de ciúme, para não parecerem fracas.

O ciúme é o principal catalisador de homicídio de parceiros românticos. Sob sua influência, as pessoas podem adotar comportamentos hostis para reduzir a autoestima de seu parceiro, fazendo-o acreditar que ninguém mais os desejaria para um relacionamento. Isso leva a um complexo de inferioridade, a ser resolvido extraconjugalmente – e então o ciúme é autoperpetuado. David Buss, professor de psicologia na Universidade do Texas, apresentou um dado revelador: nos países ocidentais, 50% a 70% das mulheres assassinadas são mortas por um marido, namorado ou ex-namorado, enquanto apenas 3% dos homens são assassinados por uma parceira ou ex-parceira. O ciúme é mais perigoso nas mãos dos homens, embora seja bastante difícil suportar a ira de uma mulher ciumenta. Crenças românticas não são, necessariamente, preditivas de violência, mas quase toda violência em relacionamentos provém de crenças românticas.

Se uma pessoa diz que não sente ciúme frente a uma ameaça, das duas uma: ou está mentindo, ou sofrendo em segredo. Quando há uma ameaça real, o ciúme, em sua designação positiva, ajuda a identificar que tipo de ação pode contribuir para que não haja surpresas negativas, mas em respeito a uma comunicação clara, sem a presença de atitudes invasivas demais. Existem alguns comportamentos de retenção de parceiros que são saudáveis e não geram o risco de elevar o ciúme.

Numa relação aberta, o ciúme se torna menos fatídico, ou é o que as pessoas poligâmicas preferem acreditar. De fato, um dos fatores que mais motivam a busca de vários parceiros é a redução significativa do ciúme. No entanto, isso pode ser um tiro pela culatra. Todos têm necessidade de proteger aqueles com quem constroem uma ligação emocional, portanto, não se deve procurar a poligamia para resolver o ciúme. A longo prazo, existe uma tendência de se buscar segurança no amor, algo que só se tem verdadeiramente com uma pessoa. Aqueles que desprezam a monogamia e enxergam com maus olhos as consequências de se ter apenas um amor se esconderão por trás de vários casos para aplacar seus sentimentos de insegurança que, todavia, ainda farão parte de sua condição, salvo raras controvérsias.

Em relacionamentos de longa duração, o ciúme tende a enfraquecer com o passar do tempo, mas deve-se estar atento para que permaneça assim. O radar nunca deve ser desligado. É muito interessante como as pessoas não prestam atenção nos deslizes de sua relação até que um ocaso surja.

O problema não está no ciúme, mas na forma como se age sobre ele. A manipulação e controle prejudicam severamente a qualidade da relação, fazendo com que atitudes despretensiosas ganhem um ar de dramaticidade desnecessária. Pessoas muito protetoras podem cair no erro de confundir sua vontade de proteção com querer controlar o outro. Elas talvez não consigam relaxar, pensando que tipo de ameaças extraconjugais deturpariam sua tranquilidade. Amor e ódio são faces da mesma moeda, portanto, é pertinente evitar que o outro se torne um rival, praticando o amor de coração aberto e com certeza de compromisso. Pensar como uma equipe.

A incerteza em relacionamentos prepondera um grande estresse, não se pode ficar totalmente seguro pensando que o parceiro está flertando com outro. O diálogo polido, nesses casos, ainda é o melhor remédio. Ninguém pode realmente possuir outra pessoa, apenas conectar-se íntima e profundamente com ela por tanto tempo quanto possível.

Quando alguém está obcecado com uma possível conduta inapropriada de seu cônjuge, cabe olhar no espelho e se perguntar se as próprias fantasias têm algum fundo de realidade. Se não surgir nada impactante, não há por que manter-se preocupado, a não ser que a pessoa seja patologicamente enciumada. Por outro lado, se alguém obcecado descobriu um fato de traição ou desconfiança, poderá tomar as devidas providências, sem, é claro, usar violência. Às vezes, a pessoa traída fica com peso na consciência e se sente um lixo em todos os aspectos, mas, se ela nunca cometeu nenhum deslize grave e cumpriu com suas obrigações conjugais à risca, não deve internalizar o fracasso, este que é só e somente do traidor.

Os ciúmes são agigantados nas redes sociais. Afinal, são muitos contatos para administrar, e mais “concorrentes a suspeitar”. Isso é doentio na medida em que se acha errado relacionar-se intimamente com outras pessoas. Ninguém gosta de ver o outro agindo para satisfazer seus desejos de possessão, mas, como é fácil perceber, há vampiros emocionais por toda parte. Embora seja acrescido pelas redes sociais, o ciúme é uma emoção antiga, ele atravessa eras e eras.

O sofrimento vinculado ao ciúme está mais atrelado a uma rígida desconfiança sobre a fidelidade de um parceiro amoroso, do que qualquer outra coisa. Bem afirmou Zygmunt Bauman:

“Quando a insegurança sobe a bordo, perde-se a confiança, a ponderação e a estabilidade da navegação. À deriva, a frágil balsa do relacionamento oscila entre as duas rochas nas quais muitas parcerias se esbarram: a submissão e o poder absolutos, a aceitação humilde e a conquista arrogante, destruindo a própria autonomia e sufocando a do parceiro. Chocar-se contra uma dessas rochas afundaria até mesmo uma boa embarcação com tripulação qualificada. O que dizer de uma balsa com um marinheiro inexperiente que, criado na era dos acessórios, nunca teve a oportunidade de aprender a arte dos reparos? Nenhum marinheiro atualizado perderia tempo consertando uma peça sem condições para navegação, preferindo trocá-la por outra sobressalente. Mas na balsa dos relacionamentos não há peças sobressalentes.”

Bem entendida a emoção do ciúme, torna-se mais fácil presumir seus significados particulares para determinada situação. Com a propagação de diversos meios de comunicação, e a articulação entre partes geograficamente distantes, aumenta-se o grau de desconfiança pessoal, pois as incertezas são agora provindas de várias direções. Com isso, necessita-se de uma eficaz administração do ciúme, pois hoje ele é maior do que nunca.

Semear e cultivar o amor leva muito tempo, algo que a sociedade imediatista enxerga com asco. Guiadas pelo impulso, as pessoas não podem esperar que seus relacionamentos sejam qualificados, quiçá duradouros. As habilidades artísticas e antigas relacionadas ao amor estão sendo banalizadas, e o lado bom disso é que quem age diretivamente em prol da durabilidade do seu amor está indo contra a corrente e agindo como uma pessoa cada vez mais exótica.

Alguns modernos, ávidos por novas conexões amorosas e ao mesmo tempo inconstantes em mantê-las, compram, sem perceber, uma enorme frustração futura. Viciados que estão na velocidade de consumo, esquecem-se de que o amor exige calma e paciência, duas coisas que todo relacionamento longevo conhece muito bem. Ter o amor como moeda de troca para a felicidade gera muita imaturidade naqueles que não optam por trocar a compulsividade atual pela criação de um valor agregado ao tempo. Quando a experiência amorosa não oferece soluções imediatas, o relacionamento corre o risco de se tornar obsoleto, erro a ser eliminado por pessoas que sabem que o amor não gera apenas prazer, e pode, ao contrário disso, causar muitas decepções. Como Bauman (2004) argumentou, no interior de uma lógica cultural do consumo, a dedicação necessária à construção da confiança pode representar um preço demasiado, que nem todos estariam dispostos e nem mesmo em condições de pagar.

No ciúme patológico, proteção e vigilância assumem um caráter de vilania, e esses ataques de monitoramento constante não se traduzem na estabilidade emocional da relação, mas são materializados no sentido escravizante da palavra, a interminável vontade de manter o parceiro sob grilhões para que o enciumado se sinta seguro, enquanto age na base da covardia. Ciente das condições flexíveis do amor, esse enciumado se desespera, mas, com seu desespero, apenas fortalece a escravidão vigente e abusiva de quem se deixa dominar.

O ciúme provém do medo da perda, mas nem todo medo da perda tem a ver com ciúme. Uma mulher que descobre que seu marido está com câncer terminal não sentirá ciúme dele. Uma melhor sugestão é que o ciúme provém do medo da perda para outra pessoa. O medo, por si só, não explica o ciúme, pois quem o sente relata estar sofrendo de outras emoções associativas, como desgosto, raiva e tristeza. Ciúme é irracional quando não associado à possibilidade de perder alguém para outro. Há, evidentemente, casos em que o ciúme é infundado, mas desculpável, quando a pessoa teve um bom motivo para crer que seu parceiro poderia tê-la traído.

Bom afirmar que não existem desculpas que justifiquem a traição. Se a pessoa está magoada por alguma coisa horrível que aconteceu e, pensando bem, não deseja mais estar com seu parceiro, deve terminar o relacionamento antes de tentar alguma burrice, como trai-lo enquanto ainda estão juntos. Na prática, a solução procurada (ficar com outra pessoa) gera mais um problema para se aguentar. E outra, a traição não começa e termina nas percepções dos envolvidos. Todas as pessoas mais próximas que ficam sabendo de um caso extraconjugal sempre terão uma boa razão para desconfiar do traidor, pois pensam que quem já traiu pode trair de novo, se as circunstâncias estiverem favorecendo esse tipo de comportamento desleal.

Em Otelo, Shakespeare definiu o ciúme como “o monstro de olhos verdes que simula a carne que alimenta”. As pessoas são devoradas por esse monstro faminto que elas mesmas criam para si.

A confiança é uma das coisas mais difíceis de trabalhar, envolve saúde psicológica, comprometimento com o futuro e abandono de atitudes compulsivas. A desconfiança do ciumento pode funcionar como uma estratégia de fuga desse trabalho árduo que, contudo, nunca deve ser abandonado, se o ideal for a eternidade do amor ou pelo menos sua máxima duração. A intimidade é uma condição adquirida pela atribuição real de identidades e entrega deliberada, coisas a serem evitadas por indivíduos inertes e alienados ao que significa, profundamente, a arte de amar.

O medo da perda é suscitado pela perspectiva de que, hoje em dia, tudo pode acontecer, desde coisas banais às mais absurdas. Ao se deixar claros os limites na relação, no entanto, esse medo perde substância e as coisas podem prosseguir em seu curso natural preferível.

O ciúme também se relaciona com a inveja. Inveja do corpo atlético da melhor amiga, da inteligência do colega de trabalho, do inimigo mortal que está namorando uma bela mulher. Quando acompanhado de inveja, o ciúme é duas vezes mais danoso para a autoestima. E, geralmente, as pessoas sabem quando estão sendo invejosas, mas esse é um pecado envergonhado, então elas escondem-no para não transmitirem uma má impressão. O propósito da vida é o autodesenvolvimento, não se está aqui para viver sob os moldes de outra pessoa. Estar refém dos padrões alheios é o mesmo que assassinar a própria autenticidade. A diferença entre ciúme e inveja é que o primeiro envolve mais que duas pessoas.

Apesar de suas conotações negativas, o ciúme é um sentimento valioso se usado para estimular comportamentos que mantenham a saúde de uma parceria relevante. O ciúme provocará resultados para o bem ou para o mal, dependendo de como se o gerencia. Não há como expulsá-lo completamente da mente, amando.

Não se deve subestimar o poder destrutivo do ciúme. Caso se saiba de uma pessoa enciumada, é prudente agir com cautela perante ela, para se evitar intrigas de ordem maior, a menos que se tenha alguma responsabilidade sobre esse sentimento. As pessoas devem se libertar de seu ciúme quando não compreendem as suas razões.

*Com informações do Psychology Today

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


COMPARTILHE

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS




Eduardo Ruano
Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.