O amor pra mim é um conceito que desconceitualizei. Um estado de ser e estar que anda perdendo tantas castas, uma camada atrás da outra.
Por que você já percebeu que a palavra amor parece impune? Por causa do amor tanta coisa é válida, dentro do amor cabem tantos pequenos absurdos que são banalizados pelo nosso olhar. O amor suporta bagagens muitas vezes nada fáceis de carregar.
Quanta coisa a gente aguenta em nome do amor, quanta coisa a gente vive como se fizesse parte do amor, quanta coisa a gente encara, a gente faz, a gente passa, a gente morre, a gente deixa, esquece, esconde… para estar dentro do amor.
Desculpa dizer, mas eu ando achando que só começa a aprender amar quem passou pela solidão. E não por uma solidão doída, pedinte, excluída, de alma sedenta. Não é a solidão dos que clamam e não têm, dos que buscam e perdem, dos que passam os domingos à tarde escrevendo cartas para um futuro amor.
É a solidão. Matéria que nos constituí. É o que somos. Talvez algo entre o desmamar do desamparo materno e a coragem de voar com as próprias asas e de olhos abertos ver a beleza do que você se tornou: um adulto, dono do seu corpo e da sua alma.
É uma solidão do ‘tudo bem’, do fazer o dia, do não remoer os passados, e não ansiar pelos futuros. Solidão da presença, do estado presente. Quem chega aí sabe que é sozinho que se chega. E que bom chegar! Não tem tanto perigo como parece, como pregam os marketings digitais do instagram.
Eu acho que amor, amor próprio, amor a dois, amor a três, amor que flui, amor de diferentes formas, refletido em diferentes coisas, só existe quando a gente vive em paz com a solidão. E isso é quase um pleonasmo. Porque solidão, dessas que ando falando, é paz.
E aí talvez amar seja quase como brincar.
Às vezes me questiono sobre essa estrada da vida… na infância a gente já tinha tanta sabedoria… percebeu? Mas vamos aprendendo e vamos reaprendendo os jeitos de estar no mundo. Até esse amor maluco nos foi ensinado, até o amor bom nos foi desinstalado (talvez não totalmente, talvez a gente consiga amar uma planta quase como na infância, ou algo assim).
Apesar que nem sei mais se a infância ainda é uma boa referência para o que eu estou tentando dizer. Talvez o que eu esteja tentando dizer é que amor é agora, é troca com um amigo que chegou com uma bola na mão, com uma ideia na cabeça, com energia no corpo e coisas em comum com as minhas vontades de vida, desta vida, deste momento.
É sintonia, quando o santo bate numa tarde ensolarada e a gente se esquece das horas e das presenças (e as tardes podem virar anos sim, mas isso [e outro assunto). À noite a gente dorme, pode ser que as brincadeiras continuem, pode ser que não.
Mas a nossa vida, com ou sem amigo para brincar, continua, e continua com presenças, com chegadas e partidas, com fins de verões e inícios de invernos.
Não que não exista saudades, mas não é uma sensação de perder a alma, de perder o chão. Não pesa nas costas, não esvazia o corpo. Amor não completa algo que nos falta, não manipula, não preenche, não esvazia. Vem e junta, vai e não tira.
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