Às vezes, admito, escrevo atendendo a um chamado da minha vaidade. Escapa como aquela selfie que a gente faz em frente a uma belíssima paisagem, fingindo ser sem querer, com uma luz adequada mascarando nossas imperfeições.

Às vezes escrevo porque quero garantir a mim mesmo o direito de não me calar. Vale qualquer coisa, um comentário irônico, a manifestação de uma genuína revolta, uma alegria, a graça que eu vi em alguma coisa e tenho vontade de dividir.

Também escrevo por tédio. Essa é a razão da qual menos me orgulho. E talvez seja por isso que encaixei estrategicamente no meio do texto.

Escrevo na ânsia de resgatar antigas memórias, maturá-las, traduzi-las. Me traduzir. Quando escrevo estou jogando no chão todas as mil peças do quebra-cabeças e juntando aos pouquinhos pra ver que desenho forma. Fantasio que um dia será possível emoldurar o quebra-cabeças e pendurá-lo na parede para exibi-lo com orgulho. Às vezes a poesia cai bem.

Escrevo todas as aventuras que não vivi. E a partir do momento em que as ponho no papel, ou no computador, que seja, elas passam a ser parte da minha história. Não dizem os estudos científicos que os sonhos que temos enquanto dormimos ficam registrados no nosso cérebro como memórias? Pois então.

Escrevo porque acontece. Parece que brota, sabe? É quase instinto. E eu sei que estou correndo todos os riscos de parecer pretensioso dizendo tudo isso. Mas se expor é mesmo correr todos os riscos de ser ridículo. Não há negociação. E posso, no meu dia a dia, estar sendo ridículo de tantas outras formas menos divertidas que acho que esse é um risco que vale a pena.

Escrevo às vezes sem nem saber o porquê. E tem que ter um porquê, afinal? Nem todas as necessidades se justificam.

Resumindo, não me ponho no papel de censurar uma necessidade minha. Nem que seja a de me expor gratuitamente. Estamos todos, de um modo ou de outro, querendo ser vistos, ouvidos, compreendidos. O que são as redes sociais senão um amontoado de vozes ecoando e necessidades se manifestando.

Imagem de capa: A. and I. Kruk/shutterstock

Felipe Souza

Felipe Souza é escritor, jornalista, editor de conteúdo para a internet e agora também podcaster. E, além disso, um leitor voraz e um curioso sobre os mais diversos assuntos.

Recent Posts

Aos 15 anos, ele recebeu a pena de morte — mas ninguém teve coragem de executá-lo

Essa criança tinha uma maldade sem limites, foi condenado à morte, mas as autoridades não…

2 horas ago

No 83º andar da Torre Sul, ela soube que era o fim e fez um pedido inacreditável que emociona a todos até hoje

O ano era 2001. Ela sabia que não sairia dali com vida. Mesmo assim, sua…

2 horas ago

A decisão desta mãe sobre a mancha do bebê gerou revolta — até que o motivo veio à tona

Ela foi chamada de 'monstro' por tentar salvar o próprio filho...

2 horas ago

Ela fingiu ser amiga da rival para cometer um crime sem precedentes no Brasil

Ela conquistou a confiança da esposa do amante, entrou na casa como uma amiga... E…

3 horas ago

Uma geração inteira se lembra dela como Paquita — mas poucos sabem como ela está hoje

Ela foi uma das paquitas mais queridas do Brasil. Anos depois, sua transformação está chamando…

4 horas ago

Após perder tudo, mulher passa por transformação surreal e história oculta vem à tona

A história devastadora que a internet não contou sobre as fotos policiais de Misty Loman

5 horas ago