Não sou palhaço porque amei, palhaço é quem não se entrega

Você morre ou renasce quando descobre que não passa de um palhaço?

Palhaços, como os anjos, não tem sex0. São essência. Podem ser essencialmente sábios ou essencialmente tolos.

As crianças têm medo dos palhaços porque sabem que no fundo eles não são seres desse mundo. Ou é coisa desse mundo ofertar sorriso para quem não está disposto a sorrir?

Que nossa existência é um circo, estamos carecas de saber, mais carecas que o palhaço Carequinha, mas só por isso devemos entrar em jaulas de leões? Devemos nos atirar de canhões como o homem-bala, rumo ao nada? Devemos nos expor ao incrível atirador de facas chamado “ilusão”?

É da condição humana, dizem, se expor ao perigo, mas é da condição humana se expor ao ridículo mais do que um palhaço que mostra a bunda numa arena? Ou isso é privilégio dos poetas, que, como os palhaços, fingem a dor que deveras sentem?

Você é um palhaço quando se despede de alguém que nunca esteve ali. Você é um palhaço quando acredita em algo além das possibilidades. É um palhaço quando vê o cabo de aço prestes a estourar e mesmo assim se joga. É um palhaço quando não vê a porta fechada e mete a testa na madeira. É um palhaço quando não sabe o seu devido lugar no picadeiro de certas histórias.

Você é um palhaço quando subestima alguém. Quando ignora seus próprios limites. Você é um palhaço quando não percebe que é uma questão de tempo até que a noite se instale. Você é um palhaço quando, como um curinga, não demonstra nenhuma reação; quando não sabe se vai ou se fica, se se despedaça ou edifica.

Você é um palhaço quando lê sua poesia para quem não tem ouvido de poeta. É um palhaço quando não consegue ler o neon piscando na avenida do sonho: “não”

Você é um palhaço quando dá mais do que tem. Quando gosta de alguém que não gosta de você só por acreditar que nada se perde quando o que se ganhou foi a possibilidade de gostar de alguém.

Você é um palhaço quando, em tempos modernos, mistura sexo com emoção — homens modernos não estão aqui para isso.

Você é um palhaço quando tenta se tornar aquilo que é e quando vê beleza até mesmo em paisagens mortas como a indiferença dos que fingem estar vivos em suas rotinas gordas.

Quando escreve cartas de amor. Quando escreve cartas de despedida. Quando fecha os olhos e se toca pensando em quem não devia. Quando quer mais do que pode ter.

Você morre ou renasce quando descobre que não passa de um palhaço?

Não sei, mas desconfio seriamente que os verdadeiros palhaços talvez sejam aqueles que não se entregam.

Mônica Montone

Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.

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