Ana Macarini

Não carregue fardos que não são seus

Veja bem, é literalmente impossível agradar a todos. Tem gente que vai implicar com você pelo que você diz, escreve, pensa… Assim como tem gente que vai torcer o nariz para você pelo que você não diz, não pensa e não escreve. É a vida!

Faz parte do processo não ser uma unanimidade. E isso é uma bênção. Porque se você for uma unanimidade num mundo tão diverso, só pode ser um sinal de que você não é nada, não representa nada e não quer dizer nada, para você mesma e para o outro.

O fato é que é muito difícil seguir incólume diante de afrontamentos ríspidos. Por exemplo, outro dia eu postei um pensamento meu, desses que você pensa assim meio de chofre sabe? Algo que lhe parece simples, porém verdadeiro. Eu disse que não adianta nada a pessoa parar de usar canudinhos de plástico e continuar com “aquela cara de quem comeu e não gostou”, porque cara feia também polui o ambiente.

Virgemaria! Logo apareceram várias pessoas com inúmeras pedras na mão para dizer que o post era ridículo, absurdo, desnecessário. Que é uma lástima alguém defender o uso dos canudinhos plásticos, porque eles matam os animais do mar e destroem o equilíbrio do sistema e bla, bla, bla…

Ora, ora… em nenhum momento eu escrevi que as pessoas deveriam usar os malditos canudinhos plásticos. Eu mesma não uso há anos. Vivo me preocupando com o tanto de embalagens inúteis que usamos. Carrego sacolas retornáveis no carro para evitar as sacolas descartáveis. Reciclo lixo em casa.

O post apenas convidava a uma reflexão sobre as diferentes – não excludentes -, formas de encher o ambiente com porcarias. O post dizia que, ALÉM DE DEIXAR DE USAR OS CANUDINHOS, A PESSOA DEVIA DEIXAR DE USAR A CARA FEIA! Era para agregar a ideia de não poluir o mundo, seja com lixo físico ou com lixo mental.

Mas, como a moda agora é partir para o combate, ainda que não haja o que combater, as pessoas reagem de forma agressiva e sentem necessidade de afrontar e intimidar. Postam comentários azedos e fazem tolas ameaças como dizer que “estou deixando de te seguir”!

Dizer que isso não me incomoda seria uma inverdade. Deixar de me seguir não vai mudar em nada a minha vida, nem para melhor, nem para pior. O que muda a minha vida é perceber que a cara de quem comeu e não gostou é, no final das contas, o menor dos problemas. O maior dos problemas é o azedume, o julgamento impulsivo por falta de habilidade em interpretar textos e essa necessidade de POLARIZAR TUDO, PROBLEMATIZAR TUDO.

Gente reativa é tóxica, impede a instalação do diálogo, faz ruir as oportunidades de crescimento pelo pensamento que diverge. Fui dormir com esse fardo de não entender como é que alguém pode pensar que EU estaria defendendo que se use algo tão fútil e destrutivo quanto um canudinho plástico.

Mas acordei com o mesmo pensamento transformado dentro de mim. A razão para o equívoco interpretativo vai muito além da má formação linguística e gramatical. É apenas mais um reflexo da maneira rasa com que a maior parte das pessoas escolhe olhar e compreender o mundo. Os canudinhos são apenas um pedaço da capacidade destrutiva do ser humano; eles assolam a natureza. Mas é a intolerância e a visão tacanha de mão única que vai acabar nos destruindo, antes que o planeta enfim chegue ao fim.

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

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