Em 1969, uma comédia sobre dois casais dispostos a questionar as regras do casamento chegou aos cinemas americanos e provocou discussões sobre fidelidade, liberdade sexual e relacionamentos. Estrelado por Natalie Wood, Robert Culp, Elliott Gould e Dyan Cannon, Bob, Carol, Ted e Alice conquistou o público, recebeu quatro indicações ao Oscar e marcou a estreia de Paul Mazursky na direção de longas-metragens.
O filme acompanhava Bob e Carol, um casal que, depois de participar de um retiro de terapia em grupo, decide adotar uma postura de completa sinceridade no casamento. A mudança acaba envolvendo seus amigos Ted e Alice, que não compartilham exatamente o mesmo entusiasmo pelas novas ideias.
A abordagem bem-humorada de assuntos considerados delicados para a época ajudou a transformar a produção em um sucesso. Entretanto, os bastidores guardam episódios curiosos, participações inesperadas e pequenos erros de gravação que passaram despercebidos por boa parte dos espectadores.
A ideia para o filme nasceu do interesse de Paul Mazursky pelas experiências terapêuticas que ganhavam popularidade nos Estados Unidos durante a década de 1960.
O diretor conheceu o trabalho do terapeuta Fritz Perls e as atividades desenvolvidas no Instituto Esalen, localizado em Big Sur, na Califórnia. O centro, fundado em 1962, promovia encontros voltados ao autoconhecimento, às relações humanas e à expressão das emoções.
Mazursky e sua esposa participaram de atividades no local. A experiência forneceu material para a comédia que ele escreveria em parceria com Larry Tucker.
Na época, a chamada revolução sexual estava alterando os debates sobre casamento e comportamento. O roteiro aproveitou esse ambiente para explorar as contradições entre os ideais de liberdade defendidos pelos personagens e suas reações quando precisam colocá-los em prática.
Apesar de já trabalhar como ator e roteirista, Mazursky nunca havia comandado um longa-metragem. E a estreia atrás das câmeras começou de maneira bastante desconfortável.
Segundo um relato atribuído ao cineasta, ele chegou ao estúdio e encontrou aproximadamente 75 profissionais aguardando suas instruções. Diante da responsabilidade, ficou sem saber como começar.
O diretor de fotografia Charles Lang percebeu a situação e propôs que os dois subissem em uma grua para discutir a primeira tomada.
Havia um problema: Mazursky tinha medo de altura.
Mesmo assustado, aceitou a sugestão. Durante alguns minutos, Lang conversou tranquilamente com ele sobre as possibilidades de filmagem, permitindo que organizasse suas ideias longe da equipe.
Quando desceram, Mazursky já estava preparado para começar os trabalhos. A parceria funcionou e Lang acabaria recebendo uma indicação ao Oscar pela fotografia da produção.
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Um detalhe discreto no figurino de Natalie Wood tinha uma explicação pessoal.
A atriz costumava usar uma pulseira no braço esquerdo para esconder uma deformidade no pulso, consequência de um acidente ocorrido durante sua infância.
Aos 10 anos, enquanto trabalhava no filme The Green Promise, lançado em 1949, Natalie sofreu uma queda durante a gravação de uma sequência envolvendo uma ponte. O acidente provocou uma fratura no pulso esquerdo.
Segundo a biografia Natasha: The Biography of Natalie Wood, escrita por Suzanne Finstad, a lesão não recebeu o tratamento adequado e deixou uma alteração permanente.
Incomodada com a aparência do pulso, a atriz passou a escondê-lo frequentemente com pulseiras e outros acessórios.
Em Bob, Carol, Ted e Alice, esse hábito pode ser observado em algumas cenas. Um elemento aparentemente comum do figurino estava relacionado a uma experiência que a acompanhava desde criança.
Natalie Wood já era uma estrela consolidada de Hollywood quando aceitou interpretar Carol Sanders. Sua carreira incluía produções como Juventude Transviada (1955), Amor, Sublime Amor (1961) e Clamor do Sexo (1961).
Entretanto, ela vinha reduzindo sua participação no cinema. Antes de Bob, Carol, Ted e Alice, seu último longa-metragem havia sido Penelope, lançado em 1966.
A comédia representou seu retorno às telas depois de aproximadamente três anos. Curiosamente, mesmo com a boa recepção do filme, Natalie voltou a se afastar dos longas-metragens.
Ela trabalharia novamente como atriz em uma produção televisiva em 1973, antes de retornar ao cinema com Peeper, em 1975, ao lado de Michael Caine.
Outro detalhe relacionado à sua participação foi o figurino criado por Moss Mabry. Responsável pelas roupas do elenco, o profissional desenvolveu peças que acompanhavam a moda do final dos anos 1960, incluindo um sutiã especialmente confeccionado para Wood.
A participação de Dyan Cannon como Alice Henderson aconteceu depois de um período difícil em sua vida pessoal.
A atriz havia enfrentado um divórcio conturbado com Cary Grant, com quem teve uma filha. A separação recebeu ampla cobertura da imprensa e foi acompanhada por disputas judiciais.
Cannon procurava retomar sua carreira quando surgiu a oportunidade de participar da comédia de Mazursky.
A escolha deu resultado. Sua interpretação de Alice, personagem que demonstra desconforto diante das experiências amorosas dos amigos, foi um dos destaques da produção.
Ela recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante e conquistou o prêmio de melhor atriz coadjuvante do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York.
Elliott Gould, intérprete de Ted, também recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante.
O elenco reúne alguns rostos que podem surpreender quem assiste ao filme atualmente.
Um deles é Leif Garrett, que posteriormente se tornaria conhecido como cantor e ídolo adolescente nos anos 1970. Ainda criança, ele participou da produção interpretando Jimmy Henderson, em uma aparição não creditada.
Outro nome inesperado é Bill Cosby. O ator aparece brevemente como frequentador de uma boate, usando chapéu, camisa vermelha e óculos escuros.
A participação estabelece uma curiosa ligação com Robert Culp, com quem Cosby havia trabalhado na série televisiva I Spy, exibida durante os anos 1960.
O próprio Mazursky também aparece discretamente, interpretando um homem que grita durante uma das sequências no instituto terapêutico.
Há ainda Donald F. Muhich, que interpreta o terapeuta procurado por Alice. Fora das telas, Muhich era terapeuta do próprio diretor.
Mesmo com a atenção dedicada à produção, algumas falhas de continuidade chegaram à versão exibida nos cinemas.
Uma das mais perceptíveis ocorre durante uma refeição. Ted e Alice começam a comer suas sobremesas, mas, na tomada seguinte, os pratos aparecem sendo servidos novamente, como se ainda não tivessem chegado à mesa.
Outro erro envolve um toca-discos. Após uma festa, Bob coloca um disco para tocar. Pouco depois, a música continua sendo ouvida, embora o aparelho apareça ao fundo sem nenhum disco em reprodução.
Há também uma inconsistência na sequência em que Carol confessa uma relação extraconjugal ao marido. Bob se aproxima da escada usando um casaco. Quando a câmera muda de posição, ele já está sem a peça, que aparece nas mãos de Carol.
Em outra cena, na cozinha de um restaurante, Carol segura a mão esquerda de um garçom. Depois de um corte, ela aparece segurando a mão direita dele.
São detalhes pequenos, mas facilmente identificáveis quando as sequências são observadas com atenção.
Uma das imagens mais conhecidas da produção mostra os quatro protagonistas reunidos em uma cama, em uma situação que resume o desconforto dos personagens diante das próprias ideias sobre liberdade sexual.
A sequência foi construída com espaço para improvisações, permitindo que os atores explorassem as reações de seus personagens.
Segundo relatos sobre os bastidores, Robert Culp demonstrava maior tranquilidade durante a gravação, enquanto seus colegas precisaram encontrar uma maneira de lidar com a situação incomum.
A cena acabou se tornando uma das marcas visuais do filme e apareceu em materiais promocionais da época.
Apesar da temática provocativa, Mazursky preferiu explorar o constrangimento e as contradições dos personagens, usando o humor para retratar os limites de suas experiências.
Lançado comercialmente nos Estados Unidos em outubro de 1969, depois de uma apresentação no Festival de Cinema de Nova York, Bob, Carol, Ted e Alice obteve sucesso de bilheteria e reconhecimento da crítica.
Na cerimônia do Oscar de 1970, concorreu em quatro categorias: ator coadjuvante, atriz coadjuvante, fotografia e roteiro original.
Embora não tenha conquistado nenhuma estatueta, o roteiro de Paul Mazursky e Larry Tucker recebeu reconhecimento do Writers Guild of America e dos críticos de Nova York.
O sucesso ainda levou à criação de uma adaptação televisiva, exibida pela rede americana ABC em 1973. A série teve um elenco diferente, com Robert Urich, Anne Archer, David Spielberg e Anita Gillette nos papéis principais.
A produção, porém, teve vida curta: estreou em setembro e deixou a programação em novembro daquele mesmo ano.
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