Ontem levei Marlena comigo para a cozinha. Não que eu a tivesse convidado, mas ela veio livre e espontânea. Arregaçou as mangas e me perguntou sobre os temperos. Temperos? Oh Deus, tenho essa mistura pronta de salsinha, coentro, alho e pimenta.

Serve! Ela abriu a geladeira, retirou de um pote três fatias gordas de filé mignon e me pediu uma tábua e um martelo. Ela se pôs então a bater determinada os pedaços de carne que de gordos nacos se transformaram em delicadas fatias repletas de ondulações sedentas por tempero.

E o arroz, que tal colocarmos um pouco de cenoura ralada para dar mais cor e sabor? – perguntou. Seria ótimo, respondi sorrindo, já tomando de sua mão a cebola e o alho, picando-os com a faca que nem de longe era a mais apropriada para isso.

Deixe a cenoura comigo e não se incomode com a faca, faça com amor, do seu jeito, da forma que achar mais cômodo. No seu tempo.

Geralmente o tempo na cozinha para mim sempre parece deveras apressado. Mas ontem não era eu na cozinha, era Marlena. Existia uma calma imensurável em mim a qual não disponho comumente para cozinhar e eu me lembrei então que tenho tido como companhia o livro “Mil Dias Na Toscana” escrito por ela.

Marlena de Blasi é uma americana que aos cinquenta anos, ao passear por Veneza, tocou intimamente o coração de um homem. Ele se apaixonou por ela à primeira vista, mesmo sem saber quem essa mulher era e de onde vinha.

Divorciada, mãe de dois filhos adultos e uma amante da cozinha, Marlena sempre que podia viajava para Veneza para escrever sobre culinária para algumas revistas e foi em um desses retornos que o italiano a viu pela segunda vez em um restaurante.

Sem coragem de se apresentar e sem falar inglês, ele telefonou para o estabelecimento e pediu para falar com ela. Nenhum dos dois entendeu muito bem o que o outro dizia, mas…existe uma língua específica para as palavras do coração?

Resumidamente, eles se apaixonaram, ela se mudou para Veneza e passou a contar sobre o amor, a Itália e a comida em uma sequência de romances autobiográficos: Mil Dias em Veneza, Mil Dias na Toscana, Um Certo Verão na Sicília e A Doce Vida na Úmbria.

Cada livro é como um diário no qual uma suave voz feminina destrincha a vida e suas belezas cotidianas com a sutileza de uma fada. E para quem gosta de receitas, ela ensina alguns pratos entre uma confissão e outra.

E eu fui encantada por essa doce mulher, por suas pequenas descobertas e grandes lições de vida. Fui encantada a ponto de enxergar ela em mim. Acho que é isso que acontece quando lemos um bom livro. Enxergamos a vida como se aquele que escreve tivesse um farol nas mãos a nos apontar exatamente para onde olhar.

Se eu pudesse dizer uma boa palavra a um amigo, diria para escolher com carinho seus escritores. Diria para puxá-los pela mão como companheiros, pois eles inevitavelmente nos habitam quando passeamos por seus enredos.

A janta de ontem ficou deveras saborosa. Ela tinha muito de um ingrediente especial, ela tinha muito de uma mulher marcante, ela tinha muito de Marlena.

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( Imagem de capa meramente ilustrativa)

 

Vanelli Doratioto

Vanelli Doratioto é especialista em Neurociências e Comportamento. Escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.

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