Mulheres com cabelos brancos

Imagem de capa: T-Design/shutterstock

Minha mãe nasceu em 1933. O Brasil tinha menos de 40 milhões de habitantes. O presidente da República era Getúlio Vargas. Alguns anos depois estouraria a Segunda Guerra – que deixou mais de 50 milhões de mortos. Os bondes ainda trilhavam e os automóveis eram para os ricos.

Antes de completar 30 anos, mamãe tingiu seus cabelos. Na década de 1960, brasileiras com fios de cabelo branco era indicador de mau gosto e desleixo. Então ela – que sempre foi muito inteligente – fez a pintura preventiva. Pois melhor extirpar o mal antes que apareça. O fato é que lembro da mãe loira, caju, ruiva. Também recordo de suas melenas pintadas de preto.

Eu nasci em 1955. O Brasil tinha mais de 60 milhões de habitantes. Juscelino Kubitschek – o JK – seria eleito presidente da República. A Segunda Guerra havia acabado 10 anos antes. Os bondes começavam a disputar espaço com lotações e táxis.

Aos 40 e poucos surgiram meus primeiros fios brancos. Eu não os pintei. Não os despistei. O tema, antes tabu, virou polêmico. Gravei algumas reações. Eu no restaurante Mercado, em Pinheiros, aproxima-se da mesa um homem da minha idade exclamando: Parabéns! Finalmente uma mulher que não quer ser loira. Achei engraçado.

Logo no dia seguinte, teve uma senhora, com idade da minha mãe e cabelos tingidos, disparou enfática: Pelo amor de Deus, pinta esses cabelos. Já já você vai parecer uma velha coroca! Não fiz cara feia. Apenas pensei: Quem manda no meu cabelo sou eu. Assim como mando no meu nariz, na minha bunda, na minha escrita.

Também no salão que frequento na Vila Madalena, onde corto os cabelos com a ótima Laís, cansei de ouvir mandamentos da militância da tinta: Além de feio, o fio branco é mais grosso e ressecado. Se não quer tingir, passa henna. Pra que ficar com cara de velha?

É claro que fiz algumas teorias. A sociedade é mais complacente com o envelhecimento masculino do que com o feminino. Fugir dos cabelos brancos é camuflar a própria idade. Esconder as décadas é fingir-se longe da morte etc.

Agora não tenho mais fios nem mechas brancas. O branco virou maioria. E se tiver a ventura de seguir vivendo ficarei com os cabelos completamente brancos. Pois é assim que acontece. Estou na idade dos atenuantes da melanina, do brilho nos olhos, do vigor dos joelhos.

O fato é que gosto da minha cabeleira grisalha. Acho que tem seu charme e um tantinho de provocação à tradição. Mas de forma alguma faço da minha cabeça bandeira. Não advogo pelo cabelo branco. Saúdo o livre-arbítrio.

Resumo o samba: cada uma faça o que quiser da sua cabeça. Fique loira, ruiva, caju, azul, retinta, marrom, bege, rosa. Liberdade é sinônimo de infinitas possibilidades. Ruim é ouvir: Você não pode! Quando é claro que devemos poder. Tudo. Inclusive exibir a cabeleira branca.

Fernanda Pompeu

Fernanda Pompeu é escritora especializada na produção de textos para a internet. Seu gênero preferencial é a crônica. Ela também ministra aulas, palestras e workshops de escrita criativa e aplicada. Está muito entusiasmada em participar do CONTI outra, artes e afins.

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