Muita gente falando me dá vontade de ouvir passarinho

E de repente um passarinho invade uma sala de aula, um banco, um escritório ou outro canto aqui embaixo onde pessoas no modo automático se entregam a seus afazeres mundanos. É um bichinho sem charme e sem graça, um pardalzinho banal, mas vai fazer por nós algo que jamais lhe poderemos retribuir.

Inesperado e audacioso, o passarinho sobrevoa nossas cabeças pesadas de preocupação, nossos passos arrastados, nossas tarefas rasteiras e obrigações mesquinhas, nossa vidinha grudada no chão e nos faz livres, alforriados, empinando o olhar para o alto feito pipas.

Ele conseguiu. Sem mais, desmontou a ordem fria das coisas, bagunçou o mundo, desacorçoou a rotina. Por longos e inesquecíveis segundos, um mero passarinho vai encerrar a tirania da vida prática, implodir a torre de pedra, quebrar o silêncio e as correntes de nossa obediência cega.

Ali, olhando os voos circulares e fugidios do pássaro, nos salvamos uns aos outros do tédio e do ódio. Já não somos seres apáticos e perdidos, dormindo o sono nervoso de nosso trabalho escravo. Somos criaturas que voam, despertas pela sanha de um passarinho livre e libertário.

Minha bisavó me disse um dia que todo cão vira-lata quando morre vira um pardalzinnho e vai fazer vira-latices no céu. Pois esse deve ter sido um vira-latão vigoroso, valente, capaz de enfrentar onça e apagar rojão com a boca. Um ser humano muito infeliz passa a mão numa vassoura, disposto a abater o invasor. Nada! Habilidoso, ele desvia por todos os lados, rasa até quase o chão e segue de volta para o teto, desce, sobe e mergulha de novo, magnífico como o reitor de uma alta universidade das aves, em evoluções gloriosas sob nossos olhos perplexos e a fúria inútil de quem tenta expulsá-lo a golpes de vassoura.

Enquanto voa sobre nós, ele nos lembra de que estamos vivos e que a vida é a surpresa, o incalculado, o intempestivo. O pássaro que invade a sala. O resto, a rotina, o piloto automático, a apatia, tudo isso é engano que nos rouba a vida aos poucos, amarra nossos pés no chão, corta nossas asas, abrevia nosso tempo.

Então, rápido como em sua chegada, o passarinho atravessa uma fresta e ganha de novo o céu, breve e poderoso tal qual a vida. Entre nós aqui embaixo, uns sentem alívio, outros decepção, outros alegria. Outros sentem tudo isso junto e entendem o recado. À noite, vão dormir e sonhar com o pássaro em seu rumo sublime, prontos para seguir mais alto como ele.

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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