Ser alguém que caminha sozinho é bom. Pouca coisa na vida é melhor. Nada nos dá sensação de poder tão grande quanto aceitar nossa condição de seres sós, autônomos, emancipados, livres.
Que privilégio maravilhoso é o sentimento de não depender de ninguém para nada. Que alegria é me dar conta de que não preciso de aprovação nenhuma para fazer o que quero, inclusive fazer nada. Ser só é um presente e eu agradeço todos os dias por isso. Mas confesso: de quando em vez eu saio em busca de outros amores. Tenho comigo mesmo uma relação aberta.
É sempre assim. Por mais longe e mais alto que seja o meu voo em companhia alheia, eu sempre volto para mim mesmo. Eu me pertenço. Não tenho ciúme, não fico inseguro. Não faço cena. Permito-me tomar outros rumos, dormir noutras camas, sonhar outros sonhos, sofrer outras dores.
Sou livre para trazer amores novos à minha casa, apresentá-los a mim mesmo, um de cada vez, em encontros alegres de corações felizes. Por serem livres como eu, partem quando queiram, sem culpa, sem mais. E se esquecerem uma saudade aqui e outra ali, serão bem-vindas nas lembranças que celebro comigo mesmo de tardinha, quando o sol já se escorrega e a lua se insinua encantadora, linda, sozinha como nós.
Ao meu lado, sou alguém com quem adoro fazer a feira, jogar na loteria, jantar o que há na geladeira. Alguém com quem esperar o atendimento na fila do pronto-socorro, fazer contas, viajar junto revezando a direção do carro.
Sou alguém que tem amor por si mesmo. E que não se importa de dividi-lo com quem vier numa conversinha embriagada, um filme bobo, uma pia cheia de louça, um passeio no sol do parque ou no ar-condicionado da livraria. Essas coisas todas que, normalmente, faço comigo. Mas que às vezes também é bom fazer na companhia de quem vive do lado de fora de mim.
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