Juno era a deusa romana do casamento, a esposa de Júpiter e rainha dos deuses. Corresponde à deusa Hera na Mitologia Grega. Era a protetora do Estado e tinha diversos epítetos e funções.

Juno, como padroeira do casamento, era invocada nos casamentos para garantir a felicidade duradoura, além de ser protetora das funções e atributos femininos.

Um desses epítetos era Juno Moneta (a Avisadora), que a tornava protetora dos recursos do Tesouro e deusa da moeda e da prosperidade. Moneta era venerada no cimo norte do Capitólio, em Roma. E em seu templo era cunhado a moeda do Estado. Moeda, em sua etimologia, vem do grego moneres, que significa “única”.

Contava-se que, durante a guerra contra Pirro, temendo que o dinheiro lhes viesse a faltar, os Romanos pediram conselho a Juno. A deusa respondeu-lhes que jamais teriam falta de dinheiro se orientassem as suas guerras com justiça. Como agradecimento por esse conselho, decidiu-se que a cunhagem da moeda se faria sob os auspícios da deusa. Seu rosto hoje aparece nas notas de reais e em moedas.

As festas entre os dias 21 a 24 de Junho (nome do mês em sua homenagem), eram consagradas a Juno, e nelas se acendiam fogueiras para espantar maus espíritos e assim obter uma colheita próspera no ano seguinte. Essas festas foram mascaradas pelo cristianismo e permanecem como as famosas festas juninas.

Juno, assim como Hera, era a Grande Mãe celeste, capaz de criar tempestades e assim trazer chuvas para a terra, propiciando o plantio e a colheita. Com isso, observa-se que os romanos entendiam que o dinheiro era um princípio feminino em sua origem. Uma energia de troca, que gera prosperidade.

Além disso, aliar a deusa do casamento ao dinheiro, simboliza que uma união feliz e harmoniosa é fonte de prosperidade.

Com o advento do Patriarcado, o dinheiro passou a ter uma função masculina, remetendo a poder e não mais a uma troca onde ambas as partes se beneficiam. Deixando de ser um doar e receber, passou a ser fonte de exploração e disputas.

Contudo, é importante ressaltar que Juno presidia a castidade feminina para o casamento. Com isso ela não se harmonizava com a deusa do amor e sexualidade feminina, a exuberante Vênus. A sociedade romana (assim como a grega) estava em um estágio pré-patriarcal e os indícios do patriarcado já se faziam notar em sua Mitologia.

Isso fica claro na separação entre matrimônio, sexualidade e prazer femininos. Denotando que a sexualidade feminina era ameaçadora para o Estado e um patriarcado em início de vigência. Juno, assim como Hera, era uma divindade pré – helência, uma Grande Mãe que foi rebaixada ao papel de esposa ciumenta, vingativa e separada de seu próprio prazer. Seus ataques de ira ciumenta culminavam em tempestades.

Divindades mais antigas associadas a tempestade, como a yorubá Iansã, tinham uma sexualidade exuberante e não se submetiam a homem nenhum. Eram donas de seus destinos e escolhiam com quem iam se relacionar.
As tempestades eram causadas pela sua personalidade arrebatadora e passional e não por crises de ciúmes.

Com o advento do patriarcado o casamento passou a ser moeda de troca e as associações e relações sexuais não visavam mais o prazer, mas títulos, status e acumulação de bens. A sexualidade feminina com o subsequente prazer precisou ser refreada, pois é através do prazer feminino, do Eros, que a relação amorosa se estabelece.

Além disso, em sociedades matriarcais, a legitimidade dos filhos vinha através da mãe. Ao passar para o nome do pai, o controle para assegurar a paternidade começou a afetar diretamente o poder do homem e a capacidade de passar seus bens materiais para seus herdeiros legítimos. Por essa razão foi necessário refrear os desejos femininos.

Juno, assim como a grega Hera, foi rebaixada e ferida. Destituída da sexualidade, do prazer na relação, ela foi condenada a um casamento abusivo com Júpiter que a traía constantemente e ela permanecia fiel ao seu lado. Todas essas informações apresentadas afetam diretamente a forma como lidamos com o dinheiro.

Com esse texto quero propor uma reflexão: De que forma você enxerga o dinheiro? Como um fim ou como uma consequência de um trabalho de alma?

Não importa se você é homem ou mulher, como anda a sua relação com o feminino? O dinheiro para você é uma forma de obter poder sobre os outros, ou é uma forma de troca e de obter prosperidade tanto material quanto espiritual?

Um meio para que você possa realizar coisas que vão aumentar seus valores espirituais e como indivíduo, ou apenas para acúmulo de bens que muitas vezes não são usados?

Como você lida com a sua sexualidade? É reprimida? É uma forma de aprofundar a relação e obter prazer para ambos? Ou é uma forma de controle e auto afirmação? Como você lida com o prazer? Você tem prazer na vida ou apenas vive para ganhar dinheiro e ser produtivo?

A forma como você enxerga o dinheiro e a sexualidade pauta a sua crença sobre abundância e prosperidade. Mais do que nunca precisamos rever esses conceitos, para que a verdadeira prosperidade nos alcance. Para que entendamos que não estamos isolados um do outro e que também somos parte da natureza, e que a riqueza de recursos naturais é a nossa maior dádiva.

Hellen Reis Mourão

Analista Junguiana, especialista em contos de fadas e Mitologia, escritora, professora e palestrante.

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