Inadequada, eu?

Quantas vezes já me senti inadequada? Incontáveis vezes. Quantas vezes já sofri por isto? Todas elas.

De fato, relembrando aqui, já senti bastante inadequada. Pelo que falei, pelo que deixei de falar, pelo que pensei em falar, pelo que nem cogitei…

Por ter me vestido de menos, demais, combinando, relaxando, escandalizando…

Por ter telefonado na hora errada, ter forçado uma coincidência, deixado alguém na mão, elogiado a pessoa errada, ignorado quem não merecia…

Pelos julgamentos apressados, pelos preconceitos velados, pela falta de consistência em argumentos inúteis, por ter perdido a chance de calar.

Estar inadequado é estar fora do contexto, da direção que um tema segue, da evolução dos fatos. É nadar contra e se afogar em contradições.

Sentir-se inadequado é perceber-se fazendo ou sentindo algo que grita contra a sua natureza, mas sem reação forte o bastante para recuar.

Não notar-se inadequado é deixar-se cumprir aquele papel incômodo, ridículo, vulnerável, contestável, tantas vezes lamentável. É ser o tolo da vez.

Em todas as instâncias, o sentimento ponteagudo de inadequação mostra que, dentre os caminhos possíveis, acabamos escolhendo o que não nos comporta, não nos suporta, não nos dá passagem fácil. Saímos dele envergonhados e muitas vezes culpados.

Para compensar, não fui inadequada todas as vezes em que pensei antes de falar, julgar, discutir e discursar, ainda que a vontade fosse forte e a platéia, atraente.

Não fui inadequada quando me olhei verdadeiramente no espelho e me senti bem para mim e não para os outros, aceitei meu corpo, minhas formas, meu andar, meu olhar.

Nem quando tomei uma atitude certa do que estava fazendo e não só para impressionar, quando disse sim apenas quando quis dizer sim, e não quando era a única resposta que cabia.

Por fim, colocando tudo na balança, parece que é parte habitual da gente, esse sentimento estranho, esse sapato de número trocado, mal calçado, inadequado.

E se é inevitável que sejamos inadequados em certas ocasiões, que sejamos tanto mais leves e divertidos quanto poderá ser a nossa gafe.

Essa ainda me parece a forma mais adequada de lidar com uma atitude inadequada.

Emilia Freire

Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.

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