Imagem: Mathisa/shutterstock
Recentemente, eu fui indagado por um amigo de que eu tinha mudado bastante, na verdade, de que eu fui a pessoa que mais mudei desde o ensino médio.
Prontamente o respondi dizendo que mais do que mudado, eu havia me encontrado. Aliás, há outra saída estando em um universo em constante transformação?
Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, lá paras tantas, Machado argumenta que nós estamos em constante mudança, o que ele chama de edição. Estamos sempre nos transformando em uma nova edição, como se fôssemos um livro que a cada ano passa por uma revisão.
E conforme as edições vão se alterando, nós adquirimos novos gostos, novos hábitos, novas experiências, assim como, deixamos de lado coisas que na edição atual já não possuem tanta importância ou significado.
Eu acredito que não há como não mudar com o passar do tempo. Somos expostos a situações e vivências que pouco a pouco modificam o que somos. Mas, antes que alguém pense de forma errônea, não me refiro a mudanças que alteram substancialmente a nossa essência, e sim, a metamorfoses que nos tornam ainda mais próximos do que somos intimamente.
O que ocorre é que não raras vezes silenciamos o que sentimos, deixando de modo abafado o que há de mais intrínseco e subterrâneo ao nosso ser. Para que isso venha à tona, precisamos passar por situações dolorosas, na maioria das vezes, para que sejamos obrigados a olharmo-nos no espelho totalmente despidos e, assim, percebamos que a realidade que se apresenta não está de acordo com a parte que não pode ser refletida.
Entretanto, nem sempre é uma situação específica (ou situações) que nos obriga a repensar a nossa vida. Às vezes, como disse, é a própria passagem do tempo, com a sua força inexorável, que nos leva a esse “choque de realidade”, uma vez que só o tempo traz a experiência necessária para que compreendamos alguns pontos-chave da nossa existência.
E não é que ela resolve tudo, até porque não há como. Mas, a experiência nos mostra que na vida nada é tão simples, que toda escolha tem uma consequência, e, sobretudo, que fugir daquilo que somos (por qualquer motivo que seja), só nos fará infeliz.
Para mudar, se tornar uma edição revisada, não são necessários grandes acontecimentos no mundo externo, porque a verdadeira mudança acontece internamente, quando sentimos que a pessoa que somos hoje reflete muito melhor o nosso interior do que em edições anteriores.
É claro que cada fase possui a sua importância, contudo, se as nossas experiências servem muito mais para nos aproximar de outros universos do que nosso, é preciso repensar o que o tempo, na sua complexidade e magnitude, tem nos ensinado, já que como diz o poeta – “A gente só muda quando a gente se encontra” – e ser forasteiro de si mesmo é uma das maiores tristezas da vida.
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