“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Quando o Padre Antônio Vieira escreveu essa maravilha, resumiu a história toda. O que será que ele pensava nessa hora? Será que puxava a orelha de um colega de batina muito afeito a exagerar no vinho? Falava dos exageros de uma fiel radical que seguia à risca os versículos bíblicos? Ponderava sobre a duração de seus sermões, tentando não fazê-los tão longos para não cansar a audiência nem tão curtos para não enfraquecer a mensagem? Difícil saber.
Eu só acho que ele acertou em cheio. Confirmou de alguma forma o que Buda havia dito muito tempo antes sobre o caminho do meio. Para que tanto extremismo? Aonde vamos com tantos excessos? De que servem tantas certezas?
No geral, gente muito bêbada ou muito sóbria é sempre muito chata. Deus nos livre dos embriagados demais e dos rigorosamente abstêmios. Excesso faz mal. Eu prefiro a embriaguez suave e a sobriedade moderada.
Aqui pra nós, lucidez extrema é pretensão. E pretensão quase sempre é um porre. Quem se acha mesmo tão sóbrio a ponto de entender a complexidade do mundo está tão louco quanto todos os outros. Do mesmo jeito, um cadinho de elevação, loucura e embriaguez, pela arte, pela paixão ou pelo álcool, não há de fazer mal a quem souber voltar ao chão na hora certa.
Quem já esteve nos dois lados sabe. Cair de bêbado ou se embriagar de sobriedade não é bom negócio. Vivamos sem culpa o meio termo, firmes e frágeis, loucos e sãos, bebericando um carinho aqui, enchendo a cara de sonho ali, delirando um amor acolá.
Incertos mas inteiros, errando e acertando no caminho do meio. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem tão bêbados, nem tão sóbrios. Gente imperfeita, inacabada e incompleta vivendo sem moderação.
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