Gente desapegada mesmo não guarda mágoa no coração

Quer desapegar? Desapegue. Comece já: abra o coração e jogue fora o que não presta. Tire o lixo. Dispense o entulho, o peso morto, o que está sem uso. Elimine de você toda substância inútil. Atire porta afora as questões sem solução, os velhos arrependimentos, as lembranças ruins. Tire o peso. Deixe ir.

Desapego a gente não pratica só com coisa material, não. Jogar fora uma roupa usada é fácil. Doar um sofá é mole. Duro é se livrar de um antigo preconceito, uma ideia arraigada, uma raiva que não quer sair da gente. Uma mágoa que, de tão grande, não passa mais na porta.

Abra os armários e vire as gavetas para baixo. Jogue fora. Estufe grandes sacos plásticos com provocações mal digeridas, respostas atravessadas, caras feias, decepções, venenos, picuinhas e outros restos da vida de um dia depois do outro.

Jogue fora o que puder, livre o espaço de dores e queixas e angústias. Limpe tudo. Arraste uma vassoura nova, de cabo firme e comprido, no vão escuro embaixo de cada móvel. Arranque com ácido e espátula a craca dos desaforos grudada no chão. Esfregue as paredes até sumirem as marcas de rejeições e abandonos. Desenrole a mangueira de água, abra a torneira até o fim e lave com sabão e boa vontade a sujeira do coração e da alma.

Mande a imundície embora sem culpa e sem medo. Desencane, desencalhe, desentupa. Desapegado mesmo não é só quem não liga para dinheiro ou quem divide uma fortuna com os mais pobres. É quem não abre mão da liberdade: a dele e a dos outros. Gente desapegada não prende nem se deixa prender. Não acumula. Não se apega a um navio afundando. Não gasta energia com carga inútil nem guarda mágoa. Porque mágoa é substância-irmã do cigarro, dos conservantes, dos agrotóxicos e outros venenos: dá câncer.

Desapegar pode até não ser o mesmo que perdoar ou esquecer. Mas mora perto, bem perto. Quem desapega aprende a seguir em frente, passar de lado e deixar lá atrás o que não presta, o que nada vale. Vive a dor até entender o seu recado. Aceita a tristeza até assimilar o seu sentido. Depois solta as amarras e vai. Desapega e vai adiante mais leve, mais forte, mais vivo. Mais livre.

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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