Fugir do roteiro

Depois de caminharmos alguns minutos pela praia, meu amigo Filip apontou à frente: – Ali têm duas pedras que formam um coração perfeito. Se você vier aqui e não tirar uma foto lá, não veio. Respondi com ares de moleque: – Se todo mundo vai, eu não tenho o que fazer lá. Não há nada para se descobrir nos lugares em que todo mundo já foi – E saí andando na outra direção.

E foi assim que deixei de ver a troca da guarda real em Londres para conhecer uma trupe de atores em St. Martin’s Gardens. Foi assim também que me encantei bem mais vendo como os jovens franceses matavam o tédio dos fins de tarde bebendo vinho barato e conversando à beira dos canais do que com as obras do Louvre. Foi desse jeito que descobri muito mais sobre o Monte Roraima e seus demônios brincando com as crianças do vilarejo do que com o guia da Roraima Tour. Meus amigos foram para o tango? Preferi ir para as baladas subterrâneas de Buenos Aires. Alguém já te disse que aquela cidade pode ser eletrizante? Digo eu.

Eu sei, soa implicante da minha parte. Concordo que há lugares que precisam ser conhecidos se eles significarem algo para você. Dureza é pensar que tem gente que vive sem questionar os rumos que toma, as escolhas que faz, gente que segue roteiros que alguém escreveu, seja para viajar, seja para amar, seja para sofrer. E seguem vendo os mesmos lugares, tirando fotos ocas em monumentos sem graça, comendo nos mesmos cantinhos, dormindo nos mesmos hotéis que a amiga da amiga indicou por puro medo de se frustrar e ferrar a coluna. Arriscar é se permitir errar, mas é antes e acima de tudo se permitir a descoberta de novos acertos.

O poeta português José Régio já bem dizia em seu Cântico Negro: “Ninguém me diga: ‘Vem por aqui’. Não sei por onde vou, não sei para onde vou. Sei que não vou por aí”. E seguem tentando nos guiar para as profissões pré-fabricadas, para as franquias emocionais pré-testadas, para os abusos com os quais nos acostumamos de tão repetidos que são. Desconfie das verdades preguiçosas que tentam contar para a gente. Desconfie, rápida e imediatamente, não do que os outros lhes dizem, mas do que sua alma diz a si mesma ao sabê-lo, em um misto doce de curiosidade e intuição.

Só existe hoje um coração perfeito feito de pedras à beira do mar porque um dia alguém decidiu que era hora de tomar uma direção diferente. E o fez, doce e teimosamente, como aos poucos tudo à nossa volta nos desensinou a ser.

Imagem de capa: Evgeny Glazunov/Shutterstock

Diego Engenho Novo

Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

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