“Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou o que eu escolhi me tornar.” (Jung)

Sim, ainda que ninguém nos tenha avisado, a vida não é fácil, não – já dizia Guimarães Rosa, “viver é perigoso”. Teremos, pela frente, muitos daqueles dias em que desejaríamos não ter saído da cama, em que não conteremos as lágrimas, a indignação, as decepções, a dor da impotência frente a acontecimentos sobre os quais nada poderemos fazer.

Será extremamente penoso, por isso, mantermos conosco a força necessária ao enfrentamento lúcido dos problemas que se avolumarão ao longo de nossa jornada. Tenderemos sempre a desistir, a sucumbir à escuridão que intranquiliza nossas esperanças, uma vez que a tristeza lutará o tempo todo contra a luz dos sonhos que moram aqui dentro da gente.

O ser humano possui a capacidade de refletir e de planejar o futuro, ao contrário dos animais. E essa característica inevitavelmente nos enche os planos de expectativas em relação às pessoas e aos acontecimentos que nos dizem respeito. Como desconhecemos o outro em tudo o que ele é, tampouco possuímos algum controle sobre os fatos que incidem sobre nossas vidas, muito do planejamos não vinga. E dá-lhe frustração.

Dentre os reveses que pontuarão o nosso caminho, os mais doloridos ocorrerão por conta de decepções que teremos com aqueles que mais amamos. As pessoas com quem compartilhamos nossas verdades, afinal, serão mais capazes de jogar o tanto que nos conhecem contra nós mesmos, fragilizando-nos com intensidade desmedida. Na verdade, as pessoas nos desapontarão muito mais do que os acontecimentos em si.

Em certos momentos de nossas vidas, seremos alvo de maledicências, de inveja, de comentários maldosos, de atitudes mesquinhas, de invasão de privacidade, de traição, seja do parceiro, do amigo, do colega de trabalho, seja por atos ou por palavras. Inevitável, visto que a inveja permeia a tônica da vida em sociedade, em razão do mundo de aparências em que vivemos, no qual as posses materiais determinam o nosso valor de consideração por parte da sociedade e do governo.

O que importa, em meio a isso tudo, é vivermos nossas próprias verdades, com clareza e convicção daquilo em que acreditamos, pois tudo o que nos move e nos sustenta, caso seja pautado por amor e sinceridade, acabará nos protegendo de todo e qualquer mal que lancem em nossa direção. Viver o que a alma pede sempre será a melhor maneira de nos protegermos dos reveses, das pessoas e de nós próprios.

Quem nos conhece de verdade, nossas forças e nossas fraquezas, jamais acreditará nas mentiras em que tentarão nos envolver. Quem nos ama de verdade é que nos bastará, para que caminhemos em busca de nossos sonhos, a despeito de qualquer força contrária que teremos pela frente, a despeito de toda dor que escurecerá nossa jornada. Porque a luz do amor é mais forte do que qualquer sombra de tristeza e sustentará incansavelmente a esperança de nossos passos. Isso não se nega.

Imagem de capa: RobinE/shutterstock

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

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