Tatiana Nicz

A felicidade só é real quando é compartilhada

Essa frase é do poeta americano Henry Thoreau, mas foi citada no filme “Na natureza selvagem”. Escrito e dirigido por Sean Penn, o longa é baseado no livro homônimo do jornalista Jon Krakauer que conta a história verídica do jovem americano Christopher McCandless.

Lançado em 2007, o filme recebeu diversas premiações e indicações, incluindo um Globo de Ouro de melhor canção e duas indicações ao Academy Awards (Oscar). A trilha sonora é assinada por Eddie Vedder e torna o filme ainda mais belo. Outro destaque fica por conta da fotografia com paisagens de tirar o fôlego.

Talvez o que faz da história interessante é a quebra contra o sistema por parte do protagonista: ao concluir a graduação em uma universidade renomada, ele muda de nome, abandona um futuro promissor e uma vida de luxos para percorrer sozinho parte dos Estados Unidos; em sua jornada faz explora novos contextos, faz novas amizades, vive amores e desamores. A história é emocionante, com ressalvas.

Embora a personalidade exploradora do jovem tenha encantado muitos, utilizando os mecanismos neuróticos de evitação de contato da Gestalt-terapia pode-se entender que o garoto funciona em mecanismo chamado “isolamento”. Apesar de não ter sido inicialmente descrito por Perls, o isolamento é utilizado por autores mais modernos, muitas vezes descrito como uma polaridade da “confluência”. Para a GT, não se trata necessariamente ou apenas de um afastamento físico é, principalmente, um afastamento emocional.

Assim como os outros mecanismos, o isolamento tem sua funcionalidade, muitas vezes precisamos dessa distância do outro, pois é importante estar bem sozinho. Mas, ele torna-se um mecanismo neurótico quando não conseguimos permanecer em situações e relacionamentos que podem nos trazer benefícios; quando evitamos o contato como uma defesa ou uma solução para não sofrer.

A dificuldade de tratar uma pessoa neste funcionamento neurótico é que raramente ela procurará ajuda. Uma das principais características do isolado é ter a ilusão de que se basta sozinho e muitas vezes não sentir necessidade ou falta do contato com o outro. Ainda, a pessoa nesse funcionamento pode estar cercada de gente e mesmo assim não estar acessível emocionalmente. Muitas vezes são pessoas que possuem muitos amigos, mas não se aprofundam em relação alguma, mantendo sempre uma distância emocional confortável e um certo mistério sobre si.

O que me chama atenção no filme é que, apesar de existir beleza e coragem na personalidade misteriosa e rebelde do jovem, ele claramente demonstra dificuldade em permanecer nos diferentes círculos sociais que exigem dele um maior envolvimento emocional, causando grande sofrimento naqueles que o amam. Assim, deixa para trás família, amigos, estilo de vida, e parece não se importar com isso. O paradoxo está justamente na famosa frase de Thoreau que McCandless escreve em um livro pouco antes de morrer, sozinho e isolado, no frio congelante do Alasca.

É saudável questionar o sistema, buscar outros estilos de vida, viajar e percorrer lugares diferentes, fazer novas amizades, sozinho ou acompanhado. Mas, as escolhas que nos tornam emocionalmente indisponíveis e colocam nossas vidas em risco não são funcionais, são neuróticas. Nenhuma escolha pode ser saudável quando ela nos custa a vida. Entrar em contato com o que nos é diferente pode ser desconfortável, porém é também transformador. Afinal, as cercas que construímos para nos proteger não mantêm os outros para fora, elas nos aprisionam dentro de nossa mesmice e pequenez. Sim, a felicidade só é mesmo real quando é compartilhada.

Ainda sobre os mecanismos de evitação de contato: Deflexão,Introjeção

Imagem de capa: Reprodução

Tatiana Nicz

Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Guimarães Rosa

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