Fabíola Simões

Eu não entendi que era uma despedida

Imagem: fizkes/shutterstock

Eu não entendi que era uma despedida quando você chorou e disse que precisava de um tempo para entender o que sentia.

Não entendi que era uma despedida quando me ligou no meio da madrugada e, encharcado de bebida, disse que ainda precisava de mim.

Eu não entendi que era uma despedida quando me lembrei que uma semana antes você fazia planos de eternidade, e postava no Instagram fotos de nossa felicidade.

Não entendi que era uma despedida quando percebi que algumas peças não se encaixavam; que o sorriso bobo da nossa imaturidade não combinava com a seriedade do fim.

Eu não entendi que era uma despedida quando seu olhar desencontrou o meu, e pela primeira vez o seu semblante era de adeus.

Não entendi que era uma despedida quando você disse que eu precisava de alguém melhor, e eu entendia que não haveria ninguém melhor do que você.

Eu não entendi que era uma despedida quando os nós dos seus dedos se afrouxaram, e pouco a pouco você soltou minha mão para construir novos laços.

Não entendi que era uma despedida quando reli suas mensagens e revi nossas fotos. Quando imaginei que você remava comigo e não compreendi os caminhos que levaram ao fim.

Eu não entendi que era uma despedida quando adormeci e sonhei com a gente junto; quando despertei e me deparei com sua ausência.

Não entendi que era uma despedida quando nossas malas seguiram juntas, combinando as etiquetas com nossos nomes e a vontade que não se desviassem nunca.

Eu não entendi que era uma despedida quando meu coração permaneceu ligado ao seu e minha lucidez não compreendeu o fim. Quando meu caminho mostrou marcas das suas pegadas, e eu não soube mais que estrada seguir.

Não entendi que era uma despedida, mas agora entendo que preciso cuidar mais de mim; que mesmo doendo, a história de nós dois chegou ao fim; e que mesmo sendo difícil, é hora de prosseguir.

Eu não entendi que era uma despedida, mas agora quem deseja que você vá sou eu, entendendo que o tempo da negação deu lugar à aceitação. Tempo de seguir adiante com convicção e finalmente percebendo que qualquer falta de certeza já é o prenúncio de uma definitiva despedida.

Sou grata a você por ter se despedido de mim. Ainda que tenha doído, e que eu não tenha entendido, foi o impulso necessário para eu buscar meu destino. Entendendo que meu caminho não era o mesmo que o seu, e que a despedida foi o gesto necessário para a concretização de uma vida feliz.

Fabíola Simões

Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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