Escolhas e experiências

Imagem de capa: Poprotskiy Alexey/shutterstock

Quando um jovem pretende se casar, ouvem-se comentários frequentes de amigos ou parentes para que espere um pouco mais e aproveite a vida. Que seria melhor usufruir o momento com experiências, evitando assim, um arrependimento ulterior. Imagina-se que a quantidade de experiências irá determinar a qualidade de uma existência.

Mesmo com tais recomendações, observa-se um grande número de pessoas que tiveram “experiências” e permanecem em um estado de descontentamento beirando o patológico.

Não seria arbitrário afirmar que viver em constantes buscas ou investidas pode representar uma profunda ausência de sentido na vida. Seria viver com opções, mas não ter energia para mensurar suas diferenças e pesar suas escolhas.

Uma vida de longa caminhada e poucas pairagens, que nos direciona ao mesmo ponto de partida, como uma compulsão à repetição. Tornamo-nos andarilhos, de porta em porta, sem saber o que buscamos do outro lado. E neste labirinto emocional, falsamente acreditamos estar adquirindo experiências que nos levarão a um lugar melhor.

Quando brota a certeza do que queremos, as buscas se tornam inócuas. A partir de uma análise pessoal podemos chegar a conclusões do que realmente desejamos e queremos; não é incomum que em determinados momentos desejamos, mas não queremos. Entretanto, quando reunimos esses dois vetores – o desejar e o querer – instala-se a experiência da busca ou a noção de certeza. Assim escolhemos um grande amor ou tomamos as decisões que acreditamos serem importantes.

Para conhecer o amargo da vida, basta um leve trago. Não precisamos do segundo gole ou embriagarmo-nos para ter certeza ou experiência. O relato amargo do passado pode se tornar o ar puro do futuro, quando a partir do gosto amargo aprendo a medida certa do adocicado. A experiência é sutil, e não uma roda da vida incessante que nos impõe um caminho expiatório sem retorno.

Alguns sofrimentos em nossas vidas têm as nossas impressões digitais a partir da dificuldade em priorizar nossos caminhos. O silêncio faz-se fundamental para ouvir o ruído que sinaliza o que queremos e desejamos. A habilidade para perceber esses sinais não está associada a um treinamento ou experiência, e sim a cultivar sensibilidades para identificar as tendências internas.

Experiência de vida nem sempre é uma condição essencial para nossas escolhas. Para usufruir de um grande amor, não é necessário conhecer todas as amantes. O cultivo da certeza dos nossos desejos pode ser uma opção para errarmos menos em nossos caminhos.

Rafael Souza Carvalho

Jornalista, apresentador do Sentinelas da Tupi (Rádio Tupi -RJ), Licenciado em História e Psicanalista em formação pala Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa.

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