A escolha é sempre nossa

Não é nada fácil gostar, amar alguém sozinho, em silêncio, esperando sempre o momento propício pra dizer como se sente. Quando nos sentimos atraídos, ligados à outra pessoa que pode não se sentir da mesma forma ou às vezes, nem sabe que a gente existe. Quem nunca se encantou, quem nunca se deixou envolver por alguém que não pudesse ter?
De uma forma ou de outra, em diferentes proporções, mas todos em algum momento desejamos alguém tanto que não conseguíamos pensar em outra coisa, não conseguíamos tirar essa pessoa da cabeça.

Às vezes, nós fantasiamos e nos sentimos atraídos por alguém distante do nosso convívio, como aquele professor da faculdade ou o amigo mais velho do irmão. Nesses casos, deixamos só a imaginação tomar conta e nos divertimos cada vez que encontramos o objeto do nosso desejo e gostaríamos de ser algo mais. Diria que se sentir assim, é quase um rito saudável de passagem para a vida adulta, em algum momento já nos sentimos assim por alguém.

Mas e quando esse lance platônico vai mais além do uma simples atração, do que uma fantasia de criança e nos vemos amando, desejando alguém para ter do nosso lado? Aí, sem dúvida, é mais doído e mais complicado de administrar quando nos apaixonamos por pessoas do nosso convívio, como um amigo de muitos anos, um colega de trabalho, aquele amigo da faculdade que tem namorada.

Não importa porque você ainda não tomou coragem de dar o próximo passo e chamar essa pessoa pra sair ou conversar com ela como você se sente, o motivo é sempre o mesmo, porque é complicado, porque tem muito mais coisa envolvida. Pode ser porque você acha que ele não se sente da mesma forma, porque é comprometido, porque não quer estragar uma amizade de muitos anos.

Entendo completamente a hesitação, afinal se fosse fácil de resolver, não seria platônico, ninguém fica tanto tempo assim no limbo só por insegurança ou medo, existem outras razões também.

Não é nada divertido ser aquele que espera, aquele que aceita, aquele que se conforma com tudo. Quem ama sozinho é como se ficasse de um lado da porta aguardando uma chance, um momento certo, enquanto o outro permanece no escuro, sem saber como realmente nos sentimos, sem ter ideia do que está acontecendo.

E cada momento, cada instante que você tem sozinho com aquela pessoa que você ama é suficiente para transformar seu dia, perfumar tudo ao seu redor. Mas isso é uma faca de dois gumes, quando não conseguimos ter nem por um momento o nosso objeto de desejo, é o suficiente para nos deixar com um humor duvidável e sem paciência. Querer alguém pra si é como uma droga que pode nos levantar, pode nos derrubar e pode sim nos intoxicar mais vezes do que gostaríamos, pois o amor é em si é a nossa kriptonita, nosso calcanhar de Aquiles.

Apesar de nos convencermos que temos vários motivos válidos para o nosso silêncio, a verdade que importa é uma só. Por algum motivo real ou não, achamos que não temos chance, que seremos dispensados e perderemos essa relação, essa aproximação que lutamos tanto pra construir.

Porque ainda não estamos prontos pra abrir mão, pra não termos quem desejamos no nosso universo e pra isso preferimos tê-los de qualquer forma nas nossas vidas, mesmo que seja como amigos. Acabamos então presos em uma situação que parece sem solução, aprendemos a nos contentar com tão pouco, com migalhas, com qualquer coisa que recebemos.

Nos contentamos com uma conversa mesmo que rápida no corredor do trabalho, com uma ligação de poucos minutos no telefone no meio do dia ou com um encontro na hora do almoço com pressa. Eu sei que tudo é melhor quando estamos ao lado de quem à gente quer, mas chega uma hora, por mais que demore, que essa situação cansa.

Chega uma hora que temos que nos libertar da prisão que nós próprios construímos, nos colocamos e jogamos a chave fora. O momento chega de finalmente tomarmos uma decisão definitiva e dar um fim nessa espera sem prazo determinado.

Ou decidirmos arriscar e contar como nos sentimos ou optamos por nos afastar de algo que não vai dar em nada e só nos faz mal alimentar essa esperança, essa expectativa à toa.
De uma forma ou de outra, escolher é necessário, é preciso tomar uma decisão e deixar de ser refém da situação. Porque às vezes na vida, chega o momento de escolhermos quem a gente mais ama, nós mesmos.

Ana Carolina Garcia

Vivo entre a ponta da caneta e o papel, entre o clique no teclado e a história que desabrocha na tela. Sempre em busca da palavra perfeita, do texto perfeito e do livro perfeito. Acredito no poder curativo da música e de um bom livro. Cinéfila, apaixonada por séries, Los Hermanos e filmes do Woody Allen.

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