Em mágoa parada não brota amor

Não se culpe por ter amado alguém que não soube reconhecer o amor. Não se culpe por ter inventado uma pessoa que não existia. Não se culpe por ter cedido à loucura de enxergar uma pintura rara onde só existia um borrão.

A percepção, às vezes, falha, destoa, perde o tom e a claridade. É atropelada e enganada por um turbilhão de sentimentos. Mas agora, é preciso saber lidar com a mágoa. Essa água parada, encostada no meio-fio dos seus olhos precisa sumir.

Não adianta achar que todo mundo é igual e vai fazer a mesma coisa. Não adianta pensar que o amor não existe e que não é pra você. Essas besteiras que todo mundo diz quando se depara com a decepção.

Agora é hora de esvaziar o peito e jogar fora o ressentimento porque em mágoa parada não brota amor. É hora de sacudir o coração e arejar a pele. Desfazer-se dos gestos que não movimentaram a alma porque o que não é profundo, não vale a pena cultivar.

Você amou certo uma alma torta. Plantou amor num coração baldio, que só tinha a fachada bonita. Por dentro era improdutivo e seco, cheio de janelas fechadas, de pedras e jardins mortos. O seu amor é mar aberto. Não se dá com almas que têm dom de represa.

Mas agora chega de lágrima pesada, chega de mania de lenço e noites maldormidas. É hora de sacudir o desespero, de jogar fora esse arsenal de lembranças ruins, que é projeção daquela mentira que você contou a si mesmo.

Você amou um personagem, um invólucro “bonitinho”, com cascas duras por dentro. Eu sei, a gente tem mania de dizer que consegue amar os defeitos, que vai levar numa boa, que vai saber lidar com uma porrada de manias feias e irritantes sem se ferir… mas daqui a pouco o peito desaba a sangrar e aquele encontro que tinha cara de romance assume aspecto de tropeção. E não dói só na hora, fica latejando a noite toda, e vai virando rotina, e aí, a gente amaldiçoa até o dia que saiu de casa com a alma tão sedenta e disposta a amar.

Mas agora, já chega! Essa mágoa parada na borda dos seus olhos precisa sumir e escorrer para o ralo do esquecimento. Não pode se tornar inquilina em seus pensamentos nem ocupar lugar de filha rebelde em sua cama porque em mágoa parada não brota amor. Sem contar que nenhuma mágoa merece essa atenção toda, esse ritual de sofrimento pra prestar homenagem a um personagem fictício.

Ester Chaves

ESTER CHAVES é uma escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participa de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

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