É possível sustentar a paixão a longo prazo?

Não é porque a paixão se esgota de vez em quando que isso significa o fim do desejo. O amor duradouro tem seus benefícios autoevidentes, e muitas vezes a paixão continua fazendo parte da realidade do casal, ainda que de forma pouco intensa.

Sim, mas não com a mesma intensidade que normalmente se experimenta nos estágios iniciais de um relacionamento. A paixão sofre oscilações, é natural. O problema é quando o nível de tédio é tamanho que ela desaparece. Nesse caso, a relação tende a terminar, a menos que não seja guiada unicamente por propósitos passionais.

Nos Estados Unidos, a taxa de divórcio beira os 50%. Levando em conta que um a cada dois casais se separa após determinado tempo de convivência, é comum haver um questionamento sobre se a paixão é sustentável a longo prazo, ou se o amor na modernidade perdeu seu caráter idealista e miraculoso.

Em relacionamentos muito longos, o amor romântico tende a desvanecer-se em companheirismo – e isso fortalece a crença de que dois parceiros românticos são mais felizes se nutrem amizade um pelo outro. A amizade verdadeira resiste à falta de paixão, mas nem toda relação sobrevive apenas de amizade. A importância dada à paixão determina o grau de dependência dela em uma vida conjugal.

Se existem inúmeras pessoas que permanecem juntas por décadas, apesar da degradação natural de sua paixão, o amor é muito mais do que sentir-se fisicamente atraído por alguém.

Em pessoas apaixonadas, o sexo atua como catalisador de sentimentos positivos que reforçam a sua união. Mas, se os parceiros confundem paixão com amor duradouro, um declínio na paixão por ser visto como falta de amor. Essa confusão deve ser evitada, se o objetivo for a longevidade do relacionamento.

Embora sexo seja um aspecto fundamental na grande maioria dos relacionamentos bem-sucedidos, esse sucesso pode se tornar um conceito fragilizado se a continuidade do relacionamento depender da prática sexual.

A importância dada ao sexo é fonte de enorme sofrimento em épocas nas quais a paixão está em baixa. Muitos relacionamentos são terminados por falta de atração sexual. Quando a privação de sexo é inaceitável, não há como conceber uma parceria duradoura, porque o grau de desejo varia conforme o tempo. Em vez de enxergar essa instabilidade passional como uma deficiência no outro, é prudente considerar que isso faz parte de qualquer relacionamento longo.

Uma vez que o tédio é um grande obstáculo para relacionamentos de longo prazo, os casais que batalham para manter as coisas interessantes se destacam perante os demais. É necessário manter alguma rotina, desde que não atrapalhe a vontade de inovação. Casais que experimentam um amor intenso não apenas relatam ter atração física e emocional um pelo outro, mas também uma vontade mútua de participar de atividades novas e desafiadoras.

O amor romântico pode durar uma vida inteira? É possível, mas improvável que isso aconteça. O desejo de que o romance dure para sempre é algo que os casais apaixonados não estão dispostos a abrir mão, apesar das escassas probabilidades a seu favor.

Em uma palestra do TED realizada em 2013, a psicóloga belga Esther Perel fez duas perguntas à plateia: 1) Por que o bom sexo geralmente desaparece, mesmo em casais que continuam a se amar tanto?; 2) Por que a boa intimidade não é garantia de um bom sexo, ao contrário do que a maioria acredita?. Esther viajou pelo mundo todo, e constatou que, em todo lugar onde o romantismo entrou, parece existir uma misteriosa crise de desejo. Ela chegou à conclusão de que as pessoas, em relação ao desejo, são orientadas por duas necessidades: a de segurança, proteção, confiança; e a de surpresa, novidade, mistério. Conciliar essas duas necessidades pode soar contraditório, mas é a chave para se preservar o desejo em relações duradouras, segundo ela. Para que a paixão flua bem, o parceiro romântico deve transmitir uma sensação de segurança, mas também ser alguém que possa surpreender a pessoa amada, provendo aquela deliciosa sensação de imprevisibilidade que faz o desejo florescer. E vice-versa.

Alguns psicólogos têm mencionado que nutrir paixão pela vida em geral pode ajudar a manter a paixão em um relacionamento romântico ao longo do tempo. É claro que, às vezes, as coisas não vão bem e o nível de satisfação com a vida é baixo, mas o fato de estar apaixonado pela vida parece ser requisito de uma relação conjugal apaixonante. Afinal, quem odeia a vida não consegue extrair delas os prazeres mais revigorantes, ou porque não os percebe, ou porque está afastado deles. É preciso ter habilidade para ser otimista.

Perseverar em uma relação de companheirismo independente da redução da passionalidade é uma escolha importante para determinar se os parceiros estão juntos porque se amam integralmente, ou apenas enquanto o seu desejo está aflorado.

Não é porque a paixão se esgota de vez em quando que isso significa o fim do desejo. O amor duradouro tem seus benefícios autoevidentes, e muitas vezes a paixão continua fazendo parte da realidade do casal, ainda que de forma pouco intensa. Apesar do relacionamento ser considerado menos excitante após essa mudança de intensidade, muitos se beneficiam da profunda conexão com parceiros de longa data, sem permitirem que qualquer crise na vida romântica abale seu amor num sentido mais amplo.

No começo de um relacionamento, o parceiro surpreende mais porque ainda é um mistério a ser desvendado. Manter a chama da curiosidade com o passar do tempo é um fator indispensável para que o tédio não prejudique a vontade de ambos continuarem se aventurando. Algo novo é mais excitante do que algo familiar, mas é bem possível encontrar novidades entusiasmantes em parceiros antigos.

Uma razão pela qual a mudança de paixão pode vir a ser uma decepção é que as pessoas costumam considerar o amor romântico mais potente do que um amor de companheirismo. Embora o declínio da paixão seja típico em relacionamentos longos, alguns casais conseguem preservar o desejo de excitação por décadas e décadas.

Em qualquer relação normal, a paixão e o desejo vão fluir e refluir, e essas mudanças não devem ser tratadas como anomalias, a não ser que remetam a algum problema de saúde específico.

Muitos, ao sentirem-se menos atraídos por suas parceiras do que em outrora, pensam em apagar o fogo de sua paixão com outra pessoa, tornam-se potenciais candidatos à traição. Porém, longe de resolver um problema, trair apenas revela a fragilidade de não saber valorizar um amor conquistado. O filósofo Epicuro dizia:

“Não estrague o que você tem desejando o que você não tem; lembre-se que o que você tem agora uma vez foi apenas o que você esperava ter.”

É possível desejar o que já se tem? Os seres humanos, em se tratando de desejo, têm uma curiosa propensão a procurarem pelo que é proibido. Saber como conservar o senso de aventura com um parceiro ao longo do tempo é uma tarefa que, além de trazer vigor, ainda responde positivamente a pergunta do início do parágrafo.

Cada casal tem uma vida íntima única, que nunca pode ser reproduzida perfeitamente em outro cenário que não o do próprio relacionamento. O fato de ter alguém com quem compartilhar momentos excitantes é algo que produz uma intensa satisfação, mas esta não é mantida apenas fazendo-se as mesmas coisas. É importante diversificar as abordagens e estímulos, explorar novos ambientes, exercitar a ousadia.

Duas pessoas sentem atração uma pela outra quando o desejo entre ambas é combinado, de tal forma a produzir as condições adequadas para que sua paixão se manifeste espontaneamente. A imaginação começa a visualizar oportunidades de concretização do desejo e, logo que há atração, essas pessoas sentem que devem agir, em consequência da ativação de seus instintos carnais.

Alguns casais precisam distanciar-se de vez em quando para conseguirem renovar o potencial de seu desejo, enquanto outros sentem uma necessidade alarmante de estarem conectados o tempo todo. O contato constante pode gerar monotonia, mas essa monotonia também é produzida pela separação. O ideal é manter o amor em ebulição, mesmo quando as temperaturas da paixão caem. Estabelecer um canal de comunicação eficaz também é importante para fazer com que dois parceiros afetivos não percam o foco de sua relação.

A viagem de descobrimento da paixão não consiste em procurar novos cenários, mas em ter novos olhos para a pessoa desejada. Variar as perspectivas em relação ao outro pode ajudar no cultivo da paixão de uma forma prolongada. Enxergar a pessoa por ângulos diferentes e, ao mesmo tempo, contemplar sua essência íntima tão bem conhecida, fazem aflorar a paixão que se tem por ela.

Ambos amor e paixão são fenômenos, mas a principal diferença, semanticamente falando, é que o primeiro remete a uma emoção e o segundo a um estado. A paixão é experimentada como um eventual subterfúgio, enquanto o amor verdadeiro é projetado para a eternidade.

Paixão obviamente traz tempero para um relacionamento, mas é o amor que realmente alimenta a alma. As coisas que faltam na paixão são complementadas pelo amor. Paixão pode durar dias, semanas, meses ou anos, mas, ainda assim, é cíclica, ao passo que o amor tem um maior tempo de garantia.

Para quem ama verdadeiramente, todas as crises em um relacionamento são vistas como oportunidades de crescimento, não evidências de que o amor está falhando. Zygmunt Bauman colocou isso da seguinte maneira:

“Todo amor luta para enterrar as fontes de sua precariedade e incerteza, mas, se obtém êxito, logo começa a enfraquecer – e definhar”.

Essa luta contra os medos e inseguranças que ameaçam o amor nunca deve cessar, pois o próprio ato de lutar pelo amor indica que ele ainda tem esperanças.

No início da relação, os sentimentos apaixonados emergem facilmente, eles têm autonomia; conforme o tempo passa, e ambos os parceiros se tornam mais previsíveis e familiares, deve haver em esforço maior para trazer esses sentimentos à superfície. A acomodação muitas vezes eclipsa o senso de romantismo e pode gerar a crença de que o próprio romance deixou de existir, quando na verdade o que deixa de existir é a disposição para sustentar o romance.

Existem muitas histórias sobre casais que viveram um relacionamento estável por muito tempo, até resolverem morar juntos, o que os fez entrar em crise e terminar o romance. Alguns dizem que só se conhece verdadeiramente uma pessoa quando se vive com ela sob o mesmo teto. Será que alguns desses relacionamentos terminam porque as pessoas não estavam preparadas para compartilhar uma casa, ou compartilhar uma casa apenas revelou a fragilidade de seu amor? Essa questão divide opiniões por todas as partes. Mas parece que, quanto maior a intimidade que se tem com alguém, maior é a responsabilidade por manter esse vínculo. É fácil encontrar sonhadores apaixonados que desejam viver juntos num mesmo lar, o difícil é encontrar sonhadores apaixonados com um senso de realismo para tudo o que isso representa na prática.

Estar em um relacionamento com a pessoa que se ama é um objetivo fundamental na vida de muitos, mas o trabalho não cessa uma vez que se chega a esse objetivo. Para continuar usufruindo do amor, é preciso dedicação, foco e criatividade; do contrário, o amor se desgasta. Nesse quesito, a paixão não é diferente. O esforço persistente e integrado na renovação dos votos de amor promove casais eficientes em administrar seu romance, e eles tendem a ter sucesso simplesmente por não desistirem um do outro. Até relacionamentos considerados perfeitos tendem a fraquejar se ambos os parceiros deixarem de trabalhar seu amor. Isso não é segredo. A relação não se torna leve porque ambos deixam as coisas acontecerem naturalmente, mas porque há um comprometimento sério em manter essa leveza no ar.

Muitos, quando amam, buscam sustentar o desejo, mesmo quando ele destrói o seu bom senso. Porque o desejo fornece uma energia emocional potencialíssima, a sua manutenção é vista como necessária, apesar de, em alguns casos, agir como uma força devastadora de relacionamentos. Compreender a natureza do desejo é fundamental para se recuperá-lo em fases menos inspiradas.

A paixão, assim como o amor, torna a vida mais bela, mas tal beleza só se estrutura quando os amantes se sentem amplamente responsáveis pelas consequências desse esteticismo. Por causa do amor, muitos agem de forma cruel, destruindo o amor de outra pessoa em respeito a seus próprios desejos. Portanto, para desejar é preciso ter plena responsabilidade não apenas por si, mas também pelos sentimentos e sensações causadas em quem está sob a influência desse desejo. Com frequência, a alegria dos amantes é prejudicial para todos os outros que foram desprezados a favor dessa alegria. Erra quem pensa que o desejo no amor é sempre sinal de virtude.

O encantamento do amor nas pessoas as torna mais confiantes, animadas e propensas a enxergar as maravilhas da vida. Quando acrescida de paixão, essa força estimulante é ainda maior. No entanto, a paixão pode fazer com que os amantes sejam imorais para tudo e todos que tentem atrapalhar sua relação.

Há razões válidas para se encerrar um relacionamento, dentre as quais a perda de paixão. Mas também é verdade que muitos casais decidem continuar juntos mesmo quando não há mais nenhum tipo de intimidade romântica entre eles.

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Eduardo Ruano
Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.