Li um pequeno trecho do livro “A poética do devaneio” do filósofo Gaston Bachelard que me fez refletir bastante sobre uma palavra que a maior parte das pessoas não entende direito e pensa que está ligada às pessoas loucas ou com muitas neuroses. Trata-se do DEVANEIO. Você sabia que não só eu, mas muitos escritores transmitem devaneios em seus textos?
Segue abaixo o trechinho que me inspirou a escrever o texto que você lê agora.
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“Um devaneio, diferentemente do sonho, não se conta. Para comunicá-lo é preciso escrevê-lo com emoção, escrevê-lo com gosto, revivendo-o melhor ao transcrevê-lo. Tocamos aqui no domínio do amor escrito.”
Bachelard
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A origem da palavra devaneio é muito interessante, ela vem do espanhol devaneo = de + vaneo = do vazio, do oco.
Esse vaneo lembra a palavra vão, que é um buraco, um espaço vazio. Em outras palavras, é como se disséssemos que um devaneio é algo que simplesmente vem e não se sabe explicar de onde.
Nessa hora acabo lembrando de um dos meus escritores favoritos, o mestre Rubem Alves. Muita gente constantemente perguntava como ele conseguia se inspirar tanto, de onde vinham suas inspirações, qual era sua técnica para escrever com tanta elegância etc etc. E ele sempre respondia que as inspirações simplesmente vinham e ele transcrevia para o computador.
Eu confirmo tudo o que ele diz, porque de fato é assim. Às vezes também me perguntam a mesma coisa e eu respondo um pouquinho diferente do Rubem. Estou longe de ter o nível de criatividade desse gênio da literatura, mas quando vem a inspiração é algo quase como um vento, é rápido, passageiro. Se onde estiver não puder imediatamente escrever o texto, pego um pedaço de papel e uma caneta para anotar o insight e as ideias principais que serão desenvolvidas e foco minhas energias nisso até chegar em casa e correr para o computador! Eu acho esse processo maravilhoso. Faço isso pelo amor que tenho pela escrita. Hoje já não consigo imaginar minha vida longe da escrita, ela se tornou parte de mim, assim como os muitos autores maravilhosos como o Rubem que se tornaram carne da minha carne, sangue do meu sangue.
O Rubem escrevia como uma espécie de ritual antropofágico, ou seja, ele queria que suas palavras fossem comidas, fossem como uma espécie de eucaristia. Essa metáfora é genial. Isso só é possível quando o autor coloca o amor que sente dentro de si na forma de palavras.
Tudo isso que falei é o resumo do que significa DEVANEIO. Tenho certeza que após ler esse texto você nunca mais vai olhar para essa palavra da mesma maneira. E se você é alguém que gosta de escrever, terá um sentimento ainda mais forte.
O Bachelard fala até sobre os sonhos. Os sonhos se contam, mas os devaneios se escrevem, se transcrevem com emoção. Os sonhos vêm do nosso inconsciente, uma parte da nossa psique difícil de acessar, e para acessá-la, muitas vezes é preciso entrar em processos terapêuticos. Já os devaneios não! Eles vêm do nada e a melhor forma de comunicá-los é através de textos escritos!
Que a gente estimule essa verdadeira arte dentro de nós. A arte de devanear, transformando o nosso amor em palavras escritas…
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