Dê uma chance a leveza

Há todo um misticismo envolvendo as noites de Lua Cheia. Não sou muito dado a misticismos, confesso. De toda forma, tenho que admitir que não é difícil notar que as noites de lua cheia geralmente despertam em muitas pessoas um chamado quase irresistível para saírem de suas tocas e se permitirem desfrutar dos infinitos prazeres que a noite pode oferecer. Não tenho explicação para isso. Assim como não tenho explicação para muitas outras coisas que são tidas por muitos como verdades absolutas.

O episódio que me motivou a escrever este texto ocorreu em uma dessas noites de Lua Cheia. O tal “chamado” tinha me feito sair do meu próprio casulo e caminhar pela cidade na companhia de David Bowie, no auge da sua performance, cantando Space Oddity através dos meus discretos fones de ouvido. E a noite se apresentou para mim com todo o seu potencial. No meu caminho esbarrei com um acalorado culto religioso acontecendo quase ao lado de um bar onde uma banda de Heavy Metal se apresentava para uma plateia apaixonada. O curioso é que o som alucinante da banda parecia complementar a experiência catártica dos participantes do culto. Os dois públicos talvez experimentassem a mesma transgressão coletiva de se pôr pra fora, de se permitir. Achei bonito. Tive vontade de registrar a cena, mas desisti da ideia por entender que câmera nenhuma seria capaz de reproduzir aquele momento da mesma forma que eu o enxergava.

Em frente à loja de conveniência de um posto de gasolina, vi uma concentração de pessoas, que, muito empolgadas, entoavam, a capella, o refrão: “Vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar, vaaaai vadiar, vai vadiar!”. Um dos integrantes do grupo fazia um batuque improvisado com um tambor de óleo esvaziado e os outros sambavam como se não fosse existir amanhã. Nos rostos de todos se manifestavam deliciosos sorrisos. Tive inveja daquela alegria, não vou negar. E talvez seja da necessidade de evitar esse sentimento tão vil que surgiu a vontade de continuar meu passeio noturno por ruas menos agitadas.

Acabei fazendo uma parada em uma praça localizada em frente a um edifício nobre da cidade, frequentada geralmente por jovens e suas garrafas de bebida alcoólica. Me sentei em um banco da praça e, quase instintivamente, pus-me a observar a dinâmica das outras pessoas que estavam no local. À minha direita, em outro banco, acomodava-se um grupo de senhoras. Todas muito elegantes, do auge dos seus penteados de laquê, colares de pérola e afins. À minha frente se reunia um grupo de adolescentes. Garotas com cabelos coloridos e piercings, rapazes com camisetas de bandas de rock e calças rasgadas.

Do lugar onde eu estava sentado, conseguia ouvir apenas a conversa do grupo de senhoras. E é claro que, como o ser curioso que sou, desconectei meus fones de ouvido e, desavergonhadamente, me permiti prestar atenção ao que as senhoras conversavam.

Passados quase trintas segundos de observação daquela conversa, tive vontade de conectar de novo meus fones de ouvido. Com certeza David Bowie seria companhia muitíssimo mais agradável. As respeitáveis senhoras reclamavam do tédio, diziam que a cidade estava desanimadíssima naquela noite e “secretamente” esbravejavam contra o grupo de adolescentes que dividia o espaço conosco. “Essa juventude não quer saber de nada! Só querem saber de farra. Olha lá, devem estar usando maconha! Ficam ouvindo aquelas músicas com letras horrorosas que denigrem a mulher. Que futuro é esse que o Brasil vai ter? Essa geração tá perdida mesmo!” , dizia, em um discurso inflamado, a mais eloquente delas. E, diante daquela atmosfera de pessimismo, decidi seguir minha caminhada noturna antes de me contaminar. – Porque sim, sou uma pessoa influenciável. -. Mas é claro que fiz questão de passar pelo grupo de adolescentes. Com o olfato apurado que desenvolvi trabalhando como jornalista, pude, em segundos, ouvir um fragmento da conversa deles e entender o que ali se passava. Não havia ali nem maconha, nem música que denigre as mulheres. A tal geração perdida estava reunida na praça ensaiando uma peça de teatro para a escola. E eu quis rir. Só não o fiz para não correr o risco de parecer invasivo.

Chegando em casa, pus nas mesa todas as observações que fiz ao longo do meu passeio, as embaralhei, como faz alguém que faz experimentos artísticos, e dessa experiência surgiram algumas perguntas e alguns entendimentos. Me permita expôr as minhas conclusões. Acompanhe:

1- O que aconteceria se a senhora que reclamava do tédio estivesse inserida naquela rroda de samba no posto de gasolina? Marque com um X a opção correta.

A- ( ) Ela teria sido contagiada com a alegria deles e sambaria até o Sol nascer.
B- ( ) Ela teria contagiado a todos com o seu pessimismo e eles terminariam a noite sentados em um banco de praça reclamando do tédio e do desânimo na cidade.
C- ( X ) Ela jamais estaria inserida na roda de samba, pois a alegria e a leveza são, antes de tudo, uma questão de escolha. Há pessoas que, por motivos diversos, não se permitem ser leves e descontraídas. Nem as noites de Lua Cheia dão jeito naqueles que se sentem confortáveis na insatisfação.

2- De onde teria surgido o julgamento equivocado da senhora do laquê sobre os adolescentes reunidos na praça?

A- ( ) Do fato de que a grande maioria dos jovens hoje em dia são realmente alienados e irresponsáveis.
B- ( ) Do visual dos garotos. Não se pode culpar alguém por julgar o outro pelo modo como se apresenta para a sociedade.
C- ( X ) Do olhar viciado e preconceituoso da senhora. Alguém que está acostumado a ver o mundo através de uma janela empoeirada, inevitavelmente vai enxergar tudo cinza.

3- Será que o futuro é mesmo tão horrível quanto pode parecer? O que aconteceria se abandonássemos preconceitos e déssemos uma chance ao novo, ao inesperado? E se, de repente, só pra ver no que dá, optarmos pela leveza e pela empatia?

Responda de forma dissertativa. 😉

Imagem de capa: Boris Ryaposov/shutterstock

Precisa de ajuda? Conheça a nossa orientação psicológica.


COMPARTILHE

RECOMENDAMOS



Felipe Souza
O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.

COMENTÁRIOS