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De pássaro para pássaro

No meu pensamento você pode voar, asas zunindo como os ruídos de sua mente, levam-no longe pouso breve decidido. Encantado pela amplitude do céu eterno, incansável no tempo, infinito no espaço, pássaro amplo de voo azul. Sem os limites das grades você pode ir a todos os lugares, mas vai apenas aonde quer. É meio como se parece, mas não é.

Com o mundo à disposição sem medo faz escolhas certas, e se erra nem por isso abranda o voo, voa mais para tornar-se mais certeiro. Pede desculpas com flores do campo em ramos emaranhados de modéstia. Não precisa do orgulho que engoma suas camisas, é nu de maldade e vestido de penas para o vento.

Voa antes só do que meio acompanhado, liberto do passado e dos prejuízos que este projeta no futuro. Bebe da lucidez desembaraçada do amor para manter-se prumo em movimento, assim não canta injúrias nem lamentos, sopra sonoridades curvas que ecoam na caixa acústica do universo. Se no ritmo parceiro surpreende o encontro, não hesita, e livre do medo confia que mesmo diferente o canto, diferentes as penas, diferentes as formas, é o ritmo que dita a harmonia do permanecer.

Nos meus sonhos você pode ser. E poder ser é como poder voar. Você fala com honestidade desinibida de agressividade ou defesas supérfluas. Tem leveza nos toques e economia nas análises limitadas do que não pode ver. É tão fluído e envolvente que invoca sinceridade irrepreensível, sabido de que sem máscaras conquistou o poder de dissolver todas as outras.

Trocou os papéis sociais pelos papéis de carta e escreve apaixonadamente como quem desconhece o ridículo, ri da própria timidez e despede-se dela com beijos de cócegas. Descobriu que a gargalhada inocente e o sorriso isento de sarcasmo são antídotos para a vergonha. Que a vida é curta demais para ter vergonha de existir.

Aprecia o ouro apenas de longe, sabe que o peso da fortuna o faria cair e a vida é cheia de abismos. Prefere adornar-se de tempo e de espaço, faz suas próprias regras e não acredita quando dizem que sem tais bens você não é ninguém. Sou pássaro. Sabe em silêncio. Toca instrumentos de sopro com o bico. Sou mágico. Canta. Sou rico. Ri.

Na minha vida há um espaço imenso. Você na gaiola estático simula bateres de asas, cansado grita rouco: “sou livre”. Cada vez que te vejo do alto da montanha, sinto-me eu mesma cercada de ilusão. Tiro de luto uns dias – perco o gosto de voar. Às vezes, quando te vejo penso que a minha gaiola é o mundo.

Paula Peregrina

Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.

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