Contratempos

Estava sem rumo. Tinha acabado de receber um telefone confirmando minha demissão. Deixe-me cair no sofá, como se ali fosse residir por um longo tempo. Chorei. Não aquele choro de arrependimento. Mas de surpresa quando algo que não esperamos acontece. A vida é assim.

Perdi a noção de quanto tempo ao certo fiquei ali. O celular tocou três vezes. Desliguei. Na quarta vez, atendi. Era minha mãe. Ela me pediu para encontra-la. Não quis. Queria ficar um pouco mais ali, naquele sofá preto.

Relutante, fui até a casa dela. Conversamos. Falei sobre banalidades; Não sobre a última notícia. Fiquei por ali, observando aquele cotidiano que há muito tinha esquecido como era. Na vida, não há efeito sem causa. Esquecer-se da rotina familiar foi consequência de uma escolha que fiz dois anos antes, quando comecei naquele trabalho que tanto me fazia feliz.

Trabalhava não só durante a semana, mas em alguns sábados e domingos. Não me queixo, pois como disse, estava feliz. Fazer o que gosta é o segredo para nunca trabalhar. Mas a ausência foi percebida e sentida, por mim e por eles.

Observar a casa, meus pais e irmãs, sobrinhos, as vozes, risadas e aquele amor tão costumeiro, tão real, me fez perceber o quanto fiquei longe. Não me culpo, pois foi uma escolha. Retornei por consequência de um fato que fugiu ao meu controle. Entretanto, observar novamente aquele ‘mundo’ tão meu e que estava tão distante de mim, fez com que eu resgatasse a menina que sempre fui. Ela estava ali, quietinha, tinha viajado por lugares fantásticos (onde nunca imaginou que estaria) e que agora, precisa voltar ao lar com mais bagagem.

Vivi uma noite difícil. Apesar da mudança de roteiro imposta, o céu estava estrelado. Lembro que fui ao jardim da casa e observei as estrelas. Pareciam pequenos pontos, ora longínquos, ora ao alcance da mão e de uma beleza única. Imagine que gostaria de ter conhecido Deus naquela noite. Poderíamos bater um papo. Eu perguntaria uma série de porquês…ele apenas riria de mim. Depois disso, pensei na frase: pela obra se conhece o autor. Talvez tenhamos nos tornado mais próximos naquele momento. E ele, com certeza, me mostrou parte de sua beleza.

Voltei para casa. A vida retomou seu rumo. Ciclos se fecham e outros se abrem. É um constante recomeço. Novas oportunidades, novas aventuras, sempre com gratidão.

Dias depois comecei a trabalhar em um lugar que exigia meio período. O restante do tempo eu passava com eles. Retomei a alegria. Agora, fazia a mesma coisa, usando a metade do tempo…. Não prego religião, nem imponho fé. Só afirmo que Deus é infinito em suas perfeições.

Michelle Jardim

Jornalista, locutora e atriz. Ouvinte profissional e amante de boa música, boas risadas e boa companhia. Tem como objetivo de vida a felicidade, acredita nas pessoas e na certeza de um fim certo: a morte. A única promessa para o futuro é o envolvimento em experiências que valem a pena. É atriz e locutora exclusivamente por amor. Jornalista por missão.

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