A morte do amor nunca é súbita
Ela é lenta e dolorosa
Suave e, ao mesmo tempo, cruel
Começa num dia qualquer, nem se percebe direito
E, recebendo continuamente brandas – ou intensas – doses de antídoto,
Ele vai se esvaindo por entre as distrações do dia a dia…
Pode começar quando se pensa que ele está consolidado
Foi conquistado e pronto, o trabalho acabou
Quando se começa a imaginar que, enfim, se pode dar atenção apenas a outros (tantos) aspectos da vida
E deixa-se de alimentar suficientemente o sentimento
Tanto o seu pelo outro, quanto o dele por si…
Também induz à morte do amor o “acostumamento”
Acostuma-se com a presença do outro
E passa-se a entender que não há descobertas e serem feitas, qualidades – e defeitos – a desvendar, um mistério a se decifrar
Ocorre que todos sempre são incógnitas – inclusive para si próprios -, uma vez que seres em constante transformação…
Continua-se extinguindo o amor quando se deixa de olhar para as necessidades do outro
Quando apenas as suas próprias vontades é que têm relevância
Quando não se compreende que ele é um ser completamente distinto de si, e as todas as suas peculiaridades, desejos e trejeitos precisam ser conhecidos e considerados.
Também é fulminante para o amor ser esquecido no meio da rotina frenética em que se vive
Quando o trabalho, os filhos e as contas – talvez até a atual conjuntura política do país – são muito mais considerados que o relacionamento em si
Quando aquele olhar profundo dentro do olho do outro e aquele sorriso cúmplice não acontecem mais
Quando se perde a polidez das palavras direcionadas
Quando estar mal humorado ou totalmente desajeitado não são mais motivo de atenção
Quando se perde a última gota daquela inocência juvenil, que acreditava que “amar e ser amado” era a coisa mais fantástica do mundo…
Quando o “eu te amo” começa a vir sozinho e completamente mecanizado
Desacompanhado de sentimentalismo e intenção
E, até mesmo, de “provas” que o reafirmem…
Quando não se investe para que o encontro íntimo seja original, verdadeiramente desejado e gratificante
Quando não mais se intenciona, com o cruzamento dos corpos, a fusão das almas
Quando vira apenas um modo de descarregar tensões, um ato de prazer egoístico
Ou o simples cumprimento de uma “obrigação”…
O amor se perde também nos afagos poupados
Nos agrados que se extinguiram
No olhar perdido que traduz distância
E no silêncio que começa a incomodar…
Mas a maior incidência da morte do amor ocorre na indiferença
Quando começa a predominar o “tanto faz”, o “tudo bem, depois dou um jeito”, ou o “não é tão importante assim”
Quando se deixa cegar pelo cotidiano
Quando tudo, ou qualquer outra coisa, tem sobre ele prioridade
Quando se deixa-o para o fim da lista de afazeres
Quando se permite que a preguiça e a comodidade prevaleçam
Quando se autoriza que o cansaço vença qualquer possibilidade de dedicação…
Quando não mais importa se o outro está desejando outras pessoas
Ou se é efetivamente desejado por alguém
Quando se aceita que não esteja presente em algum acontecimento importante
Quando não se compartilham mais os sonhos, as visões de mundo e os desejos para o futuro
E quando se torna irrelevante que ele também cresça, se expanda e evolua com a vida…
Contudo, enquanto houver uma gota de amor, ele ainda pode ser ressuscitado
Se restar uma brasa que seja, o fogo pode ser reacendido
Basta um dos dois se dar conta a tempo, levar o amor para a emergência e tratá-lo
Enquanto ainda houver um suspiro de vida nele, é possível sim…
Todavia, quando a vontade minguar e descaso prevalecer mesmo diante da agoniação
A morte – implacável e irreversível – vencerá a batalha e deixará como herança apenas a dor e o arrependimento por não se ter tentado salvá-lo enquanto ainda era tempo.
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