Fabíola Simões

Certas histórias têm que ficar no passado

Imagem: Dean Drobot/shutterstock

Pedro Ynterian, um cubano residente no Brasil e antigo líder estudantil em Cuba na década de 60, revelou ao programa Fantástico que em 1962 arquitetou um plano para matar Fidel Castro. Ao final da entrevista, questionado pela reportagem, ele disse: “certas histórias têm que ficar no passado”.

A afirmação me fez refletir. Pois apesar de travar uma batalha diária para focar no hoje e absorver com poesia o instante presente, tenho uma tendência à nostalgia.

Porém, algumas histórias não podem sobreviver. Têm que se despedir de nós do mesmo modo que o tempo.

Seja porque nos feriram, seja porque ferimos alguém, seja porque doeram, seja porque ainda doem… o fato é que nem toda história merece ser carregada ou guardada.

Há que se ter cuidado com as bagagens. Andar com mais suavidade levando apenas partes de nós mesmos que nos fazem bem. Despir-se de mágoas, ressentimentos, culpas e rancores. Carregar somente a parte da nossa história que pode ser curada. Perdoar e pedir perdão, zerar as dívidas com as sombriedades que carregamos e não se apegar a sentimentos que perderam o prazo de validade.

Algumas histórias têm que ficar no passado para que a gente encontre sentido e poesia no presente. Para que a memória não se sinta aprisionada num lugar de dúvidas e dor. Para que, ao dormir, os sonhos não sejam povoados por uma identidade que não nos define mais.

Nem tudo a gente deve carregar. Nem tudo merece espaço na nossa lembrança e afetividade. Alguns fatos, acontecimentos e até mesmo algumas pessoas devem ser esquecidos para que a vida encontre seu curso, trazendo as boas surpresas que só quem tem espaço na mala vai conseguir carregar…

Fabíola Simões

Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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