Por Fabrício Carpinejar

Não quebro nenhum cálice de vinho na hora de lavar.

A taça jamais se parte, apesar do vidro finíssimo, da redoma absolutamente inofensiva, da delicada superfície de gelo.

Estou invicto. Cuido tanto, tiro qualquer louça da pia para evitar choques, não arrisco nenhum movimento impetuoso, eu me fixo suavemente ao esfregar a esponja nas extremidades.

Já vivo quebrando os copos mais resistentes. Não controlo o excesso de espuma, eu me distraio com os pensamentos, eles escorregam ou trincam na torneira.

É uma grande metáfora para os relacionamentos.

Casamento que dura é o mais difícil. Casamento que acaba é o mais fácil.

Quando é um casamento brigado, que tem a fragilidade como marca, somos condicionados a prestar mais atenção aos riscos e problemas e mergulhamos diariamente num estado de alerta.

Temos a consciência de que pode terminar a qualquer momento, então preservamos mais as palavras e os gestos, dedicamos um maior tempo para prevenir mensagens desagradáveis e ofensas. O medo da ruptura, sempre próxima, faz com que redobremos a apreensão com os laços.

Já quando o casamento é estável e sem sobressaltos, abandonamos a companhia ao léu porque não precisamos de muito esforço. O piloto automático desenvolve a insensibilidade diante do aumento e da diminuição da velocidade. Há o risco do tédio e da indiferença. Não nos preocupamos em agradar, e podemos nos distanciar do romance e da atração.

Casal que se desentende é obrigado a escutar o contraponto incessantemente. Casal que se entende pensa que conhece o seu par, adivinha, não escuta e fala pelos dois.

Casal com temperamentos antagônicos entra em disputa de atenção e não desiste de seduzir e de surpreender. Casal com afinidades custa a perceber a insatisfação do próximo.

Casal com diferenças gritantes pede desculpa e se prontifica a reparar o erro. Casal que age por identificação não espera nenhuma frustração e não perdoa com facilidade.

Casal que discute aumenta o contato e a intensidade sexual. Casal que não se aborrece desemboca na amizade assexuada.

A convivência entre os opostos é superior em termos de cuidados do que a convivência entre os iguais.
O apocalipse iminente gera a salvação. O paraíso previsível gera acomodação.

Uma linha de costura prende mais o casal do que uma corrente ou uma corda. A possibilidade de romper o nó sensível permite que os dois se olhem a todo momento para verificar se permanecem juntos. Estão infinitamente se reparando e se observando para evitar o desligamento da união. Por sua vez, a firmeza da corrente e da corda criam um relaxamento e um dos dois pode se mexer bruscamente e derrubar o outro e demorar para descobrir e, mais ainda, para socorrer.

Texto de Fabrício Carpinejar.

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