Por Lourival Antonio Cristofoletti
Duas atitudes internas que comandam ações com naturais predicados mostram-se representativas na captação de sinais que nos encorajam a refletir sobre a própria existência: abre-se espaço para se pensar na lentidão tendo como companhia o silêncio.
Quando se fala da lentidão está se abordando a permissão e o convite a um olhar mais calmo para si, buscando captar emblemáticos sinais e mensagens esclarecedoras que o Imponderável e a Natureza lhe sussurram – sim, eles não gostam de gritar – a todo instante.
Mostra-se necessário desprendimento e estar atento a harmonizações para entrar em sintonia com a desaceleração: romper a inércia da agitação para transitar na calma da apreensão: são maneiras delicadas de esvaziar-se um pouco , estabelecer sintonias, buscar compreender-se e aceitar-se, compreender melhor as coisas.
Curiosa lógica da sociedade, que exige ação contínua e comunicação efetiva em tempo real e integral, em um alinhamento com a nova realidade tecnológica que ampara, vigia, cobra e angustia, para um pretenso ajuste às exigências do mercado. Há quem tenha dificuldade para ficar em silêncio, nem que seja por alguns instantes, pois o silêncio propicia que se ouça a voz interna, e isto é algo que se teme: “Não me deixem sozinho comigo: não vai ser bom”.
Mesmo no estresse do dia-a-dia caber reservar disponibilidade interior e prudente tempo para perceber as novidades e observar despreocupadamente ao redor. Entrar em sintonia com a lentidão interna é perceber a sua própria existência, as chegadas e partidas, os ritos de passagem, as mudanças das estações interiores.
Estabelecer uma convivência consigo é se permitir enveredar pelo silêncio, virtude que nos conecta com as emoções, que nos alimenta, nos supre em momentos inquietos. Descobrir maneiras de fazer do silêncio uma necessidade, um alimento. Quando a China invadiu o Tibet, há mais de 50 anos, e o som alto dos carros dos invasores apregoava as virtudes do regime do novo governo, o Dalai Lama disse: ”Roubaram-nos o que tínhamos de mais precioso: o silêncio”.
Surgem expectativas para quem ouse reconceituar o tempo e limitar os ruídos: são provas do desejo de reaprender lições sobre leveza na existência. “Como é importante o reaprendizado da lentidão! O sonho é que, um dia, a humanidade descubra, esse luxo inaudito: a lentidão no meio do silêncio!”, disse Denis de Rougemont (1906-1985), escritor e ambientalista suíço, crítico, já à época, da submissão humana à tecnologia.
Os convites para desfrutar de oportunidades de revisitação estão formulados e respondem a quem lhes acenar: basta querer neles prestar atenção. Quem resolver aderir poderá entender que a busca de alguma paz interior será descompromissado requisito; o recolhimento, exercício de virtude; o silêncio, preciosa moeda de troca com a verdade interior; a lentidão, oportunidade de sintonia com o seu tempo, o seu espaço, a sua maneira de saber viver.
(a partir de texto de Luiz G. A. de Sant´anna)
Lourival Antonio Cristofoletti, colunista Conti outra
Livro publicado: COMPORTAMENTO: INQUIETAÇÕES & PONDERAÇÕES
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