Em sua origem semântica, a palavra paixão representa sofrimento. Pathos, do grego, e passio, do latim, significam suplício, tortura. Na prática, o sentimento consegue ser mais cruel do que essa definição.
O ato de se apaixonar pode ser uma das experiências mais incríveis experimentadas pelo ser humano, caso o final seja feliz, claro. Sentimos uma sensação única, a felicidade é plena, o mundo se transforma no lugar mais perfeito e tudo parece possível de ser realizado. Ao chegar nesse estado, a pessoa mais sensata perde a razão e deixa o sentimento tomar as rédeas das situações. “Não há diferença entre um sábio e um tolo quando estão apaixonados. (George Bernard Shaw)
Quem já se apaixonou intensa e profundamente, conhece o perigo que é viver o sentimento. Ficamos saudosos, vulneráveis, expostos e sensíveis. Perdemos o bom senso das ações, não nos preocupamos com as consequências e ficamos à deriva das decisões alheias: “mostre-me um homem que não seja escravo das suas paixões”(Shakespeare).
Porém, como todo fogo apaga, o lado negativo da paixão aparece quando, ao acabar o encanto só resta a sensação de um sentimento que imutável e cansativo. Drummond em “Perturbação” escreveu: Quando estou, quando estou apaixonado/Tão fora de mim eu vivo/Que nem sei se estou vivo ou morto/Quando estou apaixonado.
A arte imita a vida, fato. E na literatura as paixões não seriam apresentadas de forma diferente. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Cleópatra e Marco Antônio, Páris e Helena de Troia, Anna Karenina e Vronsky, Victor Hugo e Juliette Drouet, Ana de Assis e Dilermano, são exemplos de personagens que, movidos pela paixão cega, não mediram as consequências para ficarem juntos. As histórias de romance vocês conhecem, os finais trágicos também.
Apaixonar-se é um verdadeiro paradoxo. Há quem defenda o sentimento e há quem o compare a um veneno dado em doses homeopáticas. Graciliano Ramos, por exemplo, considerava a paixão uma necessidade vital: “comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.
“Para Oscar Wilde, estar apaixonado era traçar um caminho de erros:”quando alguém está apaixonado, começa por enganar-se a si mesmo e acaba por enganar os outros. É o que o mundo chama romance” (Oscar Wilde).
Voltaire defendia o sentimento como base de vida, para ele a paixão representava o equilíbrio entre o bem e o mal: “paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas.”
Enfim, como ainda não inventaram um colete à prova de paixões, sugiro que escolha suas paixões a dedo. Apaixone-se por alguém diferente. Alguém que volte para se reconciliar depois de uma briga, indiferente de quem esteja certo. Alguém que saiba o valor de uma boa conversa, que goste de ler e que queira estar ao seu lado. E, como dizia Rachel Lindsay: “Aprenda a amar os defeitos e apaixone-se pelas qualidades”.
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