Aos que tiverem um pouquinho de paciência, quero falar sobre esse mundo virtual no qual estamos imersos.

Lembro-me que na minha infância e adolescência, para me comunicar com os parentes distantes, meus pais, eu precisava esperar o final de semana chegar. Era quando as fichas telefônicas duravam mais minutos, pois as ligações eram mais baratas. Para falar com uma amiga, me declarar ao namoradinho, eu escrevia a mão uma cartinha que levava dias para chegar e depois outros tantos dias para ser respondida, sem emotions, “kkkkkk”, linguagem moderna que ignora regras gramaticais, sem o calor do momento que atropela as palavras. A gente borrifava perfume no papel, escolhia com carinho o papel carta, fazia desenhos, fazia cartões.

Agora tudo é imediato. Que bom! Que benção e que maldição! Eu consigo acompanhar a vida de todas as pessoas que amo e que me são especiais, em tempo real, em vídeo-chamadas, áudios, eu compartilho momentos, pensamentos e… Não respiro mais. Não me recolho mais no meu silêncio, não desligo, não me dou ao direito de ter folgas, eu estou o tempo todo pronta para atuar aqui, ali e acolá.

Vamos ao banheiro com o telefone. Vamos na padaria com o telefone. O facebook fica conectado avisando que novas notificações chegaram, adoecemos no frenesi de tentar acompanhar o impossível.

Li outro dia um texto da Josie Conti onde ela mencionava uma situação mais ou menos assim: Quando estamos na escola, temos uma aula de matemática, o professor sai, entra o de português, sai, entra o de história e assim vai. Mas imagine que todos entrassem ao mesmo tempo e começassem a falar todos juntos, ensinando fórmulas, regras gramaticais, dando comandos e tivéssemos que olhar em todas as direções para não perder nada. É assim que estamos vivendo hoje em dia, abraçando tudo, trabalhando em diversas coisas ao mesmo tempo, colocando roupa na máquina enquanto lemos a resposta de um e-mail e vendo chegar uma notificação no whats junto com uma do face, enquanto os filhos nos chamam e o marido pergunta onde estão as meias brancas e a operadora de telefone liga no fixo avisando que tem um plano novo.

Minto? Josie mentiu? Não, senhores. Estamos exigindo de nossa máquina mais do que somos capazes de produzir e… Estamos adoecendo. Não fomos projetados para isso. Nosso cérebro está falindo. Estamos nos entupindo de vitaminas, calmantes, relaxantes e antidepressivos, porque estamos andando a 250km/h em um veículo projetado para seguros 60km/h.

As redes sociais são uma forma mágica de interação, integração, um mecanismo facilitador de negócios, de propagação de mensagens, pensamentos, de estarmos conectados uns aos outros. São também uma rede de energia e sobre isso eu me lembro de uma frase que disse “a vida é um eco, se não gosta do que está ouvindo, preste atenção no que está emitindo”. Aí parei pra prestar atenção em mim…

Tem me feito mal ver debates vazios sobre política, gente defendendo partidos, religiões, posições políticas, um CTRL+C CTRL+V desenfreado, despreocupado com a veracidade, sem mensurar consequências. Gente vazia fingindo ter conteúdo. Gente de conteúdo ficando vazia.

Tem me feito mal o desrespeito. A necessidade de mostrar para o outro uma falsa realidade de felicidade ou melancolia. A necessidade de se mostrar comprometido para não ser assediado. O assédio a quem tem compromisso. O aceite ao desrespeito em virtude do ego que precisa ser sempre superestimado.

Penso que estamos todos adoecendo de um mal chamado conexão. Não fomos programados pra isso. Nascemos para bolos de fubá no domingo a tarde na casa da vó, para abrir as portas para que os primos brinquem no quintal, para folhear livros ao invés de rolar telas.

Mais toque e menos touch, por favor!

E por essas e outras razões baseadas nessas, sobre as quais eu discorreria por muito mais tempo, é que estou me ausentando daqui. As portas ficam abertas para aqueles que considero e que me consideram amiga, para contatos reais em um mundo real.

E o trabalho, a realização de sonhos, a escrita… A VIDA, não podem estar presos ou limitadas ao Facebook ou qualquer coisa do gênero. Não quero isso pra mim e não quero para você.

Vamos viver… Antes que a vida passe e sejamos sepultados num teclado, acimentados numa tela qualquer e esquecidos dentro de um feed concorrido de notícias vazias.

Imagem de capa: Estrada Anton/shutterstock

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

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