Todos nós, em algum momento da vida, independente de qual seja a causa, passamos por momentos difíceis. São aqueles dias em que a vida perde a cor, o mundo lá fora é assustador, mas viver dentro dos nossos próprios corpos também é. São os dias em que gostaríamos de sumir, mas não temos para onde; em que gostaríamos que alguém nos abraçasse e pudesse simplesmente captar e entender toda toda a tortura e agonia que explode dentro de nós, assim, sem que precisemos dizer uma palavra.
Ultimamente, dados alguns acontecimentos que não poderiam me deixar de outra forma, tenho estado nesses dias. Comer é um sufoco. Sair de casa é um sufoco. Falar sobre os meus sentimentos? Dificílimo. Visto o melhor sorriso que consigo, cubro as olheiras com maquiagem e saio por aí fazendo o necessário. Exceto pela perda de peso que sempre denuncia que as coisas não vão muito bem comigo, eu engano direitinho. Alguns dias são melhores; noutros, levantar da cama é missão impossível, mas, como sou mestre em ocultar sentimentos – ainda que não o faça de forma voluntária – poucos parecem notar a diferença.
Mas, recentemente, um amigo – uma daquelas raras pessoas que ainda carregam sorrisos de criança e que parecem ter nascido com a função de ser anjo para aqueles que precisam – me chamou a atenção ao acertar, por vários dias seguidos, antes mesmo que eu tivesse tempo de esmiuçar qualquer expressão facial ou dizer alguma palavra, como estava o meu estado de espírito: “Patrícia, hoje tu não tá muito bem, né?” “Olha, tô feliz de te ver, hoje tu estás bem!”
Comecei a ficar intrigada, resolvi até testá-lo. Num determinado dia em que nos encontramos, não estava me sentindo muito bem, mas, mesmo assim, propositalmente caprichei no sorriso e na empolgação ao cumprimentá-lo e, para minha surpresa, ele olhou demoradamente para o meu rosto e concluiu: “Patrícia, não gostei do que vi, tu não estás bem!” Bruxaria? Leitura de pensamentos? A curiosidade estava me matando e decidi perguntar: ” Qual é o segredo? Como tu sempre adivinhas como estou me sentindo?” “É simples, Patrícia” – ele respondeu “Quando tu estás feliz, teus olhos brilham”.
Isso não saiu mais da minha cabeça. Em tempos de sensibilidade minguada, de olhares que fogem uns dos outros e que passam mais tempo voltados para telas de celulares, me descobri perplexa e comovida ao constatar que ainda existem leitores de olhares. Mal eu sabia que meus olhos me denunciavam. Talvez eles tivessem a espera de outros que ainda preservassem suficiente inocência para serem capazes de ver o que ninguém mais vê; de enxergar os brilhos que são visíveis apenas a almas nuas.
Graças a ele, agora sei o que perseguir, agora tenho um medidor de felicidade mais genuíno do que qualquer riso espontâneo que os meus lábios possam vir a formar; agora sei que, ainda que eu tenha conhecido a escuridão, meus olhos sempre serão capazes de brilhar e que, quando isso acontecer, terei a certeza de que haverá alguém no mundo apenas esperando para dizer: “Nunca perca esse brilho”.
Emagem de capa: eldar nurkovic/shutterstock
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