Amar sem ressalvas

O amor chegou para mim, chegou sem avisar. Com o aroma doce de rosas vermelhas, a brisa suave da praia, o cheiro salgado do mar. Chegou certeiro, chegou decidido.

O amor chegou para mim, chegou sem avisar. Com o aroma doce de rosas vermelhas, a brisa suave da praia, o cheiro salgado do mar. Chegou certeiro, chegou decidido. Chegou sem titubear. Veio com trilha sonora, beijos demorados de fazer suspirar e com muito brilho no olhar. O amor chegou cheio de planos, repleto de sonhos. Trouxe grandes tesouros. Uma família cheia, um jardim florido, uma mesa farta, cheiro de café, doces feitos em casa, massinha, palavras diferentes e gírias cantadas.

O amor chegou contando histórias de superação e causos mirabolantes, curvas fechadas, longas retas e muretas, chegou com pressa, chegou veloz. Veio com escuta presente nas minhas histórias, longos devaneios sobre psicologia e olhos atentos na estrada. Me olhava com olhos encantados de quem desvendara um grande tesouro escondido. Chegou improvisando roupas, 190 km por hora, pneu furado e beijos quentes sob a noite fria estrelada.

O amor chegou com a brisa gelada de inverno na praia, com a igreja imponente e iluminada, chegou em forma de estádio, com torcida organizada. O amor chegou com planos grandiosos, chegou de mudança, com casa montada.

Um dia me ensinaram que quando a esmola é demais, o santo desconfia. Que amor era construção, que leva tempo, que era preciso dar passos pequenos, ter calma. E assim, como quem duvidava, o amor chegou tão pronto que não consegui ver o todo.

Diz uma lenda que os índios americanos não souberam reconhecer as caravelas porque nunca as tinham visto. E porque não sabiam que elas existiam, foram atacados sem preparo. O amor chegou como um barco, e como os índios e as caravelas, me faltou prontidão. Esse amor não era nada como o amor que me ensinaram, era amor fácil, disponível, pronto. E eu que estava tão acostumada com perdas, não soube reconhecer os ganhos.

O amor chegou para mim, de riso solto, chegou com tanta vida que me deixou assustada. Esse amor não é para mim. Esse amor não pode ser assim. E feito jogo de sete erros, busquei com afinco cada erro, contando, cobrando, sem notar que no fundo, era eu quem estava errando. Esse amor é tão fácil, não pode ser de verdade. E foi contando os erros, que fui esquecendo de contar os acertos.

Errando aprendi que amor não vem com garantia, não existe amar com ressalvas. Amar é verbo intransitivo. E eu que pensava que amor é feito de migalhas, aprendi que amor só existe mesmo se for amor por inteiro. Amor não é feito de metades, amor é um todo repleto de acertos e também de erros. Aprendi, espero que não tão tarde, que para amar de verdade é preciso amar sem ressalvas.

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Tatiana Nicz
Libriana com ascendente em Touro. Católica com ascendente em Buda. Amo a natureza e as viagens. Eterna curiosa. Educadora e contadora de histórias. Divagadora de todas as horas. Escrevo nas horas vagas para aliviar cargas, compartilhar experiências e dormir bem. "Quem elegeu a busca não pode recusar a travessia." Guimarães Rosa