Por Gabriela Gasparin
Fã que sou de Paulo Leminski, estava eu a caminhar pela exposição sobre o poeta na Caixa Cultural, em São Paulo, quando o segurança entra na sala em que eu estava e adverte:
– Moça, vamos fechar a exposição em cinco minutos. Estou avisando só para você se preparar, sabe como é, né?
– Ah, tudo bem, sem problemas – respondo. Afinal, eu já tinha fotografado quase todos os poemas destacados na exposição, entrado em transe com um ensaio de Leminski sobre o sentido da vida (leia ao final do texto) e em poucos minutos assistiria ao show da banda Leminskanções, de Estrela Leminski, filha do poeta, com letras escritas por ele.
Eu não esperava absolutamente mais nada daquela terça-feira de feriado (que já tinha contado com uma caminhada no parque pela manhã e uma visita à exposição de Marina Abramovic à tarde, seguida de um suflê de chocolate com cupuaçu — sim, tem dias que a vida parece realmente fazer muito sentido mesmo!).
Sorridente e satisfeita, agradeci ao gentil segurança e já me preparava para sair quando ele resolveu dar uma última informação:
– E sem contar que a esposa dele resolveu chegar agora, então não queremos tumultuar.
Era isso mesmo. Alice Ruiz, poetisa e companheira de Leminski por anos, caminhava pelo corredor ao lado explicando a algumas mulheres cada detalhe das fotos ali expostas. Uma das fotografias havia me chamado a atenção um pouco antes de ela chegar. Era uma imagem em preto e branco do casal abraçadinho, que remetia a um momento de ternura e amor dos dois. Que nada. Alice revelou que ela nem queria ter tirado aquele retrato no dia. “Estávamos muito tristes”, ressaltou.
E foi assim que tive a honra de ver os últimos cinco minutos da exposição com a narração de uma real integrante da história ali exposta. Soma-se a isso, obviamente, a oportunidade que tive de perguntar a ela o sentido da vida.
– Posso devolver com uma pergunta?, indagou Alice (que deixou para responder ao final do show da filha, do qual até fez uma ponta).
– Mas é claro!
– “O que importa o sentido se tudo vibra?…” – e completou: “Eu já escrevi isso faz tempo e publiquei faz tempo, mas aí eu pensei, não tem! Não tem… [sentido]”.
Ela me disse que o sentido da vida é uma de suas questões e a maior prova é que já escreveu sobre o assunto. “É que sentido é uma coisa que você acredita que vai encontrar enquanto você é jovem, talvez a velhice começa exatamente no momento em que você descobre que muita coisa não faz sentido”, observou Alice, esclarecendo que está com 69 anos. E fez questão de ressaltar: “Olha que idade sexy. Estou fazendo 69, meu último 69!”
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Buscando o sentido
O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do universo.
Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos.
O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir.
Me recuso a viver num mundo sem sentido.
Estes ANSEIOS/ENSAIOS são incursões conceituais em busca do sentido. Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.
Só buscar o sentido faz, realmente, sentido.
Tirando isso, não tem sentido.
Paulo Leminski, Curitiba, agosto de 1986
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Sentido
(Gláucio Giordanni e Carlos Moreira)
Poema: Alice Ruiz (*)
Poema: Makely Ka (**)
Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado
Para todos os efeitos meus defeitos não são meus
Que importa o sentido se tudo vibra?*
Não importa o sentido
O bramido do meu canto mudo
Comporta bemóis e sustenidos
Convoca ouvidos surdos
Ao silêncio suave
Da melodia sem conteúdo
Está escrito
Quem não quiser ceder
ao canto das páginas
feche os olhos
ou tape com cera os ouvidos**
Poema e voz *: Alice Ruiz
Poema e voz**: Makely Ka
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