CORONAVÍRUS

A VELA DA FAMÍLIA- Fabrício Carpinejar

Sempre alguém de casa é a vela. A chama da fé. O fogo da crença.

Não importa que os outros não pratiquem a religião, não acreditem em Deus, duvidem de milagres, desdenhem da ressurreição, há alguém na família que rezará por todos.

Sempre haverá alguém fazendo vigília enquanto os demais vivem a inconsciência de seus atos, alguém cumprindo promessas das graças alcançadas e nunca noticiadas, alguém no escuro dos olhos fechados pela claridade dos seus afetos, alguém protegendo a brasa da confiança com a concha das mãos.

Minha mãe é a cera e o pavio queimando pelos filhos e os netos. Ela é a sarça ardente, a oração interminável, a guardiã do nosso futuro, a nossa advogada da transcendência, efetuando acordos, garantindo atenuantes e entrando com liminares para diminuir os nossos pecados.

De noite, ela encomenda saúde para nós, pede proteção, estabelece os turnos dos anjos conforme os problemas de cada um.

Ela é a provedora religiosa, aquela que põe comida na mesa da alma, que inspira a seguir quando estamos próximos da desistência, que diz que uma janela foi fechada para que se abra uma porta, que anuncia o sol no meio da tempestade, que sossega o medo com a esperança.

Dobra os joelhos para que fiquemos de pé, beija o chão para que possamos passar.

Entram em sua súplica inclusive quem se mostra raivoso e brigado, quem não quer conversa, quem se mantém afastado e emburrado. Não há privilégios e vaidades pessoais na sua devoção.

Realiza sacrifícios e renúncias silenciosamente, privando-se do que mais gosta ou atravessando longas escadarias apesar dos oitenta anos. Nunca saberemos o que se comprometeu em troca. Tem invioláveis segredos com o céu.

Ela nos abençoa coletivamente, independente de nossa cabeça baixa e de nossas ideologias.

Não solicita nenhuma retribuição, não procura obter vantagens e recompensas. Põe o nome por extenso dos beneficiados dentro da força do seu pensamento.

Tampouco pergunta se desejamos algo, se precisamos de uma façanha do espírito, ela está bem informada por onde anda o coração de sua prole. Dita e envia as cartas para o invisível, com a sua voz sussurrada.

Permanecemos tranquilos porque ela nos guarda.

Hoje me acordei tenso, preocupado, aflito: e quem reza pela mãe?

***

Publicado no jornal Zero Hora, GaúchaZH, p. 4, 7/4/2020.

Texto disponível na página do autor:


Imagem de capa: Imagem de Myriam Zilles por Pixabay / Fabrício Carpinejar- arquivo pessoal.

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