Por Clara Baccarin
Se você gosta de mim, não queira me contar todas as verdades do mundo
Não fure meus sonhos inflados por achar que o chão é mais seguro
Não me entupa de palavras, me deixe flutuar num mar cálido e silencioso
Mesmo que mais à frente ele desague num precipício
Conhecer a dor da morte não me priva dela, então que eu me dedique mais a contemplar a beleza da vida.
Se você gosta de mim, não venha me ensinar a comer pelas bordas
Não me jogue âncoras disfarçadas de boias
Porque eu já sei construir minhas próprias ilhas.
Não me resgate da minha situação de náufrago, da minha ambição de alcançar as estrelas e tocar a linha do horizonte, porque mesmo que eu morra afogada será num oceano de doçura.
Não te dou mais a liberdade de trazer esses olhos nublados que já não sabem precipitar e se perder no espaço abstrato dos sentidos.
Vou ignorar essa finca entre os seus olhos cavada pelas velhas verdades do mundo.
Já não te faço companhia nesse realismo sensato e chato.
Porque acho que as almas apodrecem de tão maduras.
E é de olhos abertos que eu escolho o intenso ao cuidadoso.
É nessa mesma pele que se esfola, que nascem e se preservam os arrepios.
E eu continuo preferindo ser pele do que armadura.
Se for entrar, esqueça as preocupações, os conselhos e os medos do lado de fora.
Aqui se tornam inúteis os curativos, os salva-vidas, as capas de chuva, as tesouras de podar galhos excedentes, as pílulas, os olhos de piedade, os alfinetes e as fitas métricas. Pois o que busco saber e sentir está além do mensurável, do visível e da dor.
É que eu já aprendi a me libertar e a única coisa que me prende são asas.
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