A mentira e o amor

Certa vez, em um livro de Andre Comte-Sponville, li que a mentira é a palavra amedrontada. Sai totalmente do contexto e me apeguei a beleza da frase. Quantas palavras de amor foram suprimidas pelo medo? Quantas mentiras são ditas quando não queremos ir, ou ficar? Quantas desculpas criamos? Des.culpa. O prefixo des exprime negação, ação contrária. Desculpa, livrar-se da culpa. Culpa? Por que nos culpamos quando constatamos uma verdade não prevista? Variáveis intervenientes. A vida é repleta de variáveis intervenientes. Há no adeus um amor despido de ilusões; um sentimento sem sonhos é verdade, mas não necessariamente algo que se contraponha ao amor.

Muitas vezes quando nos afastamos de alguém, amigo ou amante, oferecemos o nosso mais sincero amor; despedir-se pode e deve ser o ato da mais profunda afeição. É preciso reconhecer quando não podemos mais acrescer, e assim enxergar nas despedidas o amor. Ir e deixar ir, sem alardes, sem mentiras.

Só nos afastamos do que esteve próximo, e se esteve próximo devemos reconhecer sua importância. É preciso aprender a despedir-se de amores e amigos, pessoas importantes e queridas que já não cabem mais em nossa estrada. Assim como é preciso aceitar a despedida quando já não cabemos na estrada do outro. A vida é repleta de bifurcações. A vida é repleta de novas estradas.

Que bonito seriam as despedidas sinceras, sem palavras amedrontadas, porque é também no tempo da despedida que podemos regar o amor fazendo brotar a mais bela flor de recordações. Despedir-se de amigos e amores sem aleivosia, sem difamar a verdade do começo. O fim e o começo são um único caminho, são partes da estrada. Todo começo é ignorado, todo fim é desconhecido.

Não deveria haver desespero nas separações. “Desespera, des-espera”; deixar de esperar. Quem deixa de esperar torna-se livre para caminhar; e o caminhar é ilimitado.

Photo by John Schnobrich on Unsplash

Luciana Chardelli

Luciana Chardelli é carioca, jornalista, escritora e advogada pós graduação em Direito Penal e Processual Penal. É autora do livro "Penso, logo insisto. Um desencontro." Escreve também na Revista Obvious.

Recent Posts

Na estreia como diretor, Paul Mazursky travou no set de Bob, Carol, Ted e Alice por um motivo curioso

Em 1969, uma comédia sobre dois casais dispostos a questionar as regras do casamento chegou…

1 dia ago

Ela começou tocando violino no AGT, e Simon Cowell já estava com a mão no botão vermelho

Simon Cowell estava prestes a apertar o botão vermelho quando uma mudança na apresentação de…

1 dia ago

Há algo estranho na apresentação de Elvis em Viva Las Vegas, e não é a música que ele canta

Lançado em 1964, Viva Las Vegas reuniu Elvis Presley e Ann-Margret em uma comédia musical…

1 dia ago

Fotos antigas de grandes estrelas revelam detalhes curiosos de uma Hollywood que ficou para trás

Fotografias antigas de artistas famosos costumam revelar detalhes que dificilmente aparecem nas telas. Um sorriso…

1 dia ago

Pouco antes de morrer de câncer, ele ainda mantinha um hábito que já preocupava amigos havia anos

Patrick Swayze ficou marcado no cinema pela condição física exibida em filmes como Dirty Dancing,…

1 semana ago

DESAFIO: Você pode olhar várias vezes para esta imagem e ainda deixar alguns dos 7 gatos passarem

A ilustração parece mostrar apenas um jardim cheio de detalhes: uma árvore carregada de folhas,…

1 semana ago