Conheci Sara na recepção do famoso tatuador portenho Carlos Cavera – Estou um pouco nervosa. Até chegar aqui, tinha certeza que queria fazer uma tatuagem. Agora, não a tenho mais – Sara não tinha medo da dor, mas de se arrepender de algo, em tese, permanente. A acalmei um pouco e expliquei que as remoções de tatuagens com lasers estavam cada dia mais eficientes e menos dolorosas. Sim, menti.
Eu entendo bem Sara. Somos da mesma geração. Não X, Y ou Z. Somos de uma geração de pessoas que não se comprometem mais. Fomos educados assim. Com o passageiro, com o fluvial, diante da volatividade da tecnología, da mutação do pensamento, da fragilidade das relações. Fomos ensinados que as pessoas, experiências e sentimentos passam – ficam os arrependimentos.
Fomos ensinados que filhos são um erro. Financeiro, social, um ataque à nossa liberdade pessoal. Que ter uma casa onde se fixar é pouco moderno, pouco prático, já que o verbo de nossa geração nao é ficar, mas ir. Fomos aprendendo que pessoas, com seus problemas, se bloqueiam, se apagam. Ponto final. Não é necessário manter nada que lhe incomode, que lhe atrase, nada que possa um dia se tornar um peso.
Sofro desse mal, de relações descartáveis, de amores rasos, de medos bobos. Mea culpa, sem culpa. Eu sou assim, ou era até pouco tempo. Outra vez estou mudando. Fazer parte dessa geração também é evoluir, aprender a todo o tempo. Hoje entendo que para evoluir preciso ralentar o passo e involuir diante dos olhos assustados dos outros. Preciso cometer a burrice maior, o pecado mortal, preciso me comprometer com pessoas, coisas e causas.
Diante de tantas emoções que passem, quero um pouco das que ficam; diante de todos os valores que mudam, viver os eternizam; diante da dúvida do arrependimento, quero me entregar à beleza de escolher um caminho e trilhá-lo até o fim. Sem culpa antecipada, arrependimento programado, sem medo do desconhecido, comprometido. Sim, eu quero um filho, um lar e um amor e não espero que sejam nada menos que irreversíveis. Se amar é se prometer, comprometer-se é amar junto.
Diego Engenho Novo
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