Não são poucos os textos que discorrem sobre o descompromisso emocional das novas gerações, no sentido de que a nova ordem dita o desapego como norte a guiar os passos de quem quiser ser feliz e se livrar de decepções. Tudo está mais fácil, hoje, haja vista as quinquilharias tecnológicas que tornam tudo obsoleto de um dia para o outro. Descarta-se, assim, o que vier, desde objetos até pessoas.

É proibido demorar-se demais em lugares, em sentimentos, sensações, em pessoas. Tudo vai embora, ou seja, se tudo termina, nada deve permanecer como apego. Nessa direção, apenas o superficial se permite, pois aprofundar-se trará, fatalmente, dor. Pessoas vão embora, sentimentos acabam, carinho morre, nada é para sempre, portanto, o caminho mais fácil é seguir sem olhar fundo nos olhos de ninguém, sem acolher, sem aninhar nada nem ninguém dentro de seu coração.

Aconselham-nos a não nos preocuparmos com as dores que não são nossas, com as preocupações de vidas outras, com o que acontece fora de nosso mundinho. A regra é somente oferecermos na medida do que nos oferecem, contendo qualquer vontade de se doar para além do que nos retornam. Fechar a guarda, fechar as portas e as janelas, fechar-se. Afinal, dizem, quanto menos pessoas trouxermos para junto de nós, menos chances teremos de sermos passados para trás.

Nesse contexto, nada é profundo, tudo é superficial e passageiro. Não se aprofundam conhecimentos, amizades, sensações, emoções, sentimentos, relacionamento algum. Nivela-se por baixo tudo o que há, sem que sejam alçados voos que ultrapassem a parca zona de conforto em que incomodamente nos acomodamos. Ninguém parece querer saber, ter, conhecer, amar mais do que o mínimo. Medo de sofrer, medo de se ferrar, medo de viver de verdade.

E, assim, perdem-se oportunidades de se experenciar tudo como realmente é, de se conhecerem as coisas e as pessoas como elas são, de se viverem grandes amores, grandes histórias, grandes aventuras de vida. Porque o medo de sofrer acovarda, apequena, tolhe, restringe, tornando-nos menos amados, menos sábios, menos gente.

Como tão bem coloca Ruth Manus, tem-se uma geração que “trata tudo como descartável e que termina por ser, ela mesma, tão descartável quanto uma garrafa pet. Com a diferença de que a garrafa será reciclada e nós… Nós deixaremos algumas selfies como legado”.

Marcel Camargo

"Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar". É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.

Recent Posts

Você faz isso ao acordar? 4 hábitos matinais ligados ao risco de derrame que muita gente ignora

A primeira hora do dia costuma ser tratada no automático: levantar correndo, resolver pendências e…

1 dia ago

Esses pontinhos na visão podem não ser tão inofensivos: o que um oftalmologista recomenda fazer agora

Se você começou a ver manchas se mexendo na visão, este alerta de oftalmologista pode…

1 dia ago

Novo estudo liga autismo a fator inesperado durante a gestação e levanta alerta

O autismo pode começar antes do nascimento? Estudo traz nova pista

1 dia ago

Ela tem mais de 75 anos, não fez plástica e surpreende quem vê hoje — o antes e depois virou assunto

Você lembra dela? Atriz de olhar inesquecível surge aos 77 sem plástica e chama atenção

1 dia ago

Ela foi considerada a mulher mais bonita de Hollywood… Agora aos 86 anos, sua aparência atual está dando o que falar

Quem vê hoje nem acredita: a atriz mais bonita de Hollywood surgiu aos 86 anos…

1 dia ago

Você pode estar entendendo seu corpo errado — veja se você é ectomorfo, mesomorfo ou endomorfo

O motivo de seu corpo reagir diferente pode estar aqui — descubra qual é o…

1 dia ago