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A evolução do amor é um regressar

Me parece que evoluir no amor é um ato de regressar, é um ato de compreender que a natureza do amor é tão mais simples do que costumamos acreditar e vivenciar.

Me parece que depois da curva do sofrimento mais profundo, surge a humildade de olhar para o amor como um passarinho e não como um deus.  Nesse momento, começamos a ter a paz de sentir sem bordas. Deixamos de fiscalizar, medir, podar e punir. Simplesmente porque passamos a entender que todos esses poderes são falsas ilusões e na verdade não temos controle nenhum sobre uma pessoa ou sobre um sentimento.

Me parece que o amor nobre chega quando aprendemos a despir-nos das defesas, dos títulos, dos medos e dos orgulhos. E temos a coragem de mostrar nossos olhos transbordando e nosso sorriso aumentando. Temos coragem de expressar a nossa dor e a nossa felicidade em essência, já não temos medos delas, porque compreendemos que ofusca-las é o que causa a verdadeira dor. E também não nos importamos com o papel que estamos fazendo, porque queremos a genuinidade do outro e a nossa mesma acima de tudo.

E passamos a perder as armaduras e a sermos fracos e felizes, assim como as crianças.

Me parece que o amor nobre é uma receita simples, não precisa de muitos incrementos, precisa apenas dos ingredientes certos, de um pouco de cuidado, de sinceridade no olhar, de distração e de leveza. Que amor muito enfeitado e fantasiado pode entrar na graça de se tornar outra coisa para sempre.

Me parece que evoluir no amor é um ato de despolitiza-lo. Porque o amor já vem com a gente, de nascença, e não precisamos de regras e mandamentos para dá-lo forma e sentido. Não precisamos ser obedientes e impor obediência, que amor nobre sabe os seus caminhos.

O amor evoluído dá mais valor ao brilho nos olhos do que aos contratos. Às mãos dadas do que às alianças.  À delicadeza com que tratamos um coração do que à contagem do tempo que agregamos ao lado um do outro.

O amor nobre não entende as regras de ‘não aceito isso’, ‘não perdoo’, ‘agora temos que dar esse passo’, ‘agora temos que ser assim’, ‘agora somos um do outro e devemos respeitar nossos donos’.

O amor nobre escolhe o porto seguro pela facilidade de pousar e voar. Pela boa companhia e pela vontade de crescer e brincar juntos.

Ou como disse Rubem Alves:

‘Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.’

Clara Baccarin

Clara Baccarin escreve poemas, prosas, letras de música, pensamentos e listas de supermercado. Apaixonada por arte, viagens e natureza, já morou em 3 países, hoje mora num pedaço de mato. Já foi professora, baby-sitter, garçonete, secretária, empresária... Hoje não desgruda mais das letras que são sua sina desde quando se conhece por gente. Formada em Letras, com mestrado em Estudos Literários, tem três livros publicados: o romance ‘Castelos Tropicais’, a coletânea de poemas ‘Instruções para Lavar a Alma’, e o livro de crônicas ‘Vibração e Descompasso’. Além disso, 13 de seus poemas foram musicados e estão no CD – ‘Lavar a Alma’.

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