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50 tons de escarlate

Achei na estante dos meus pais um livro que despertou minha curiosidade. Trata-se da obra “Medo dos cinquenta” da autora Erica Jong. Logo no prefácio, ela dá a entender a tônica que vai permear sua obra: “Ele tem cinquenta anos. Ela não”. Os homens envelhecem e se tornam mais atraentes. As mulheres mesmo que se tornem mais atraentes aos cinquenta, serão constantemente lembradas de sua idade. Infelizmente de forma pejorativa.

Como a protagonista Hester Prynne de “A Letra Escarlate”, que foi obrigada a andar com uma letra “A” da cor escarlate pendurada em sua roupa, por ter sido acusada de adultério, somos obrigadas a andar com cinquenta letras “E” da cor escarlate, acusadas de termos envelhecido. De não sermos mais tão jovens como antes.

Atingir a meia idade em uma sociedade patriarcal é duro. Só comecei a perceber a partir dos comentários de alguns homens e principalmente de outras mulheres. Coisas do tipo: “Você devia ser muito bonita quando mais jovem”. “Você não aparenta a sua idade”. Pois é, o que se pode fazer num país em que a rebolada vale mais do que o caráter? Se a pressão nas mulheres que vão se aproximando dos quarenta causa enorme ansiedade, a que recai sobre as mulheres que chegam aos cinquenta é desumana.

Eu não quero ser loba, nem gatinha. Quero respeito.

Nada contra os tratamentos de beleza. Essa não é a questão. O que incomoda é sentir que a partir de determinada idade você passa a estar atrelado a uma série de regras. Por exemplo, eu não sabia que tinha que cortar o cabelo, afinal, o comprimento longo é para as mais jovens. Quem criou essa regra? Nem pensar em namorar, muito menos noivar! Você no mínimo deve estar passando pela segunda ou terceira separação, atarefada nos cuidados com os filhos e/ou enteados, estressada com a pensão atrasada, pilhas de contas a pagar, enfim, sem tempo para “essas coisas”.

A falta do “pacote completo” não te dá vantagem comparativa. Afinal somos todas mulheres de meia idade. Soterradas por uma cultura da beleza que não poupa ninguém. Décadas de repressão aos nossos direitos básicos não foram o suficiente?

Aos quarenta e nove do segundo tempo eu ainda tenho muitos planos. Nem pensar em me restringir a um clichê. Sem essa de “a vida começa aos quarenta, cinquenta, etc.” Basta ter fogo. Vontade de recomeçar. Se reinventar a cada dia. O que envelhece é se conformar em ser quem você era. Repetir o mesmo roteiro todos os dias. A vida é muito curta para ser desperdiçada com reedições.

Que bom seria poder ser autêntico em cada ação independente da idade. Sem se preocupar com o julgamento alheio. Alguns felizardos conseguem viver essa experiência. Outros se contentam em sonhar acordados. Ainda estamos longe de uma sociedade igualitária. A mudança de mentalidade não pode ser imposta por nenhuma regra legal ou moral. Tem que vir da vontade genuína da pessoa (seja homem ou mulher) de ousar em pensar diferente. De acolher o outro. De enxergar além da idade.

Adriana Abraham

Advogada e escritora, com cursos nas áreas de yoga e meditação. Carioca, residindo atualmente em Brasília.

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