Por Clara Baccarin
De certa forma, tenho vivido como um ser nômade. Não apenas porque tenho me deslocado e viajado com certa frequência e habitado diferentes lugares por um certo intervalo de tempo, mas, acima de tudo, tenho sido um ser de alma nômade. A alma nômade é aquela que possui uma certa dose de desapego, que explora sentimentos dentro de si até o esgotamento e sabe reconhecer a hora de partir quando sentimentos já não dão mais bons frutos. A alma nômade é ampla, pouco comodista, errante, aventureira de si mesma, se arrisca a explorar os próprios sentimentos que muitas vezes são territórios estrangeiros. O espaço externo às vezes não importa, porque o interno já guarda diversos mundos.
E hoje quero contar aqui 10 coisas que aprendi com minha alma nômade.
Uma alma nômade é essencialmente estrangeira. Por ter percorrido diversos universos de sentidos, e ter compreendido diferentes formas de enxergar o mundo, a alma já não consegue pertencer a um grupo e carrega em si um pouquinho de cada sentimento que atravessou. E mesmo que volte para os campos sensíveis mais familiares ou primordiais, já não se sente em casa, já não se sente chegando ao ponto de que partiu. Ser estrangeira é não pertencer a um grupo por saber que grupos impõem regras, oferecem vantagens e acolhimentos, mas também enquadram as possibilidades de sentir.
Como diz uma frase que li por ai, o lar é feito de bons sentimentos e a casa é o espaço físico. A expressão ‘sentir-se em casa’ significa sentir-se tão livre a ponto de ser você mesmo. Minha alma nômade me ensinou que eu posso me sentir em casa em qualquer lugar, porque o meu lar sou eu e o carrego aonde for. Eu sou meu lar, meu quintal é o mundo e meu porto seguro é meu coração transbordando de amor.
Por não ter casa ou um destino, a alma nômade segue devagar, aproveitando o caminhar, pois a felicidade está em cada passo, em cada olhar, em cada aprendizado e não nas grandes conquistas que podem estar me esperando no fim do caminho, no fim do dia ou no fim da vida. A vida é a viagem em si, e eu sou apaixonada pela jornada, pelo hoje, pelo agora.
Aprendi com minha alma nômade uma sabedoria cigana: o futuro não existe. Justamente por ele não existir é que os ciganos podem ler (e inventar) destinos na palma de uma mão. O único adjetivo que qualifica o amanhã é: indeterminado. Minha alma nômade tem poucos planos, nenhum plano a longo prazo. Hoje ela está contemplando, aprendendo e construindo. O resultado de tudo, não sei. Mas agora eu estou inteira
Eu escrevo porque minha causa é inspirar. Eu amo porque minha vontade é transbordar. Eu ando porque minha vida é experimentar. Eu sigo motivações, paixões e não recompensas. Eu foco nos meios, já não me importa os fins.
Solidão é apenas a decisão de caminhar sozinha por uma causa intrínseca e escutar mais as vozes internas do que as do mundo. E seguir surda, às vezes sem suporte ou companhia, seguir o que brilha por dentro. A solidão é a tentativa de preservar uma genuinidade de alma. Se ela for isso, é fácil se dar bem com ela.
Há uma frase que diz assim: ‘coragem é a resistência ao medo, o domínio do medo – não a ausência do medo’ (Mark Twain). Tenho tantos medos! Mas eu vou mesmo assim nos caminhos do desconhecido. Eu e meus medos desenvolvemos uma forma cordial de relacionamento: eles seguram minhas mãos, e eu não deixo de ir aonde devo mesmo com as mãos geladas e as pernas bambas.
Ao explorar minha alma até o esgotamento, a capacidade de compreensão aflora. Ser alma nômade é não pertencer a nenhum grupo, mas compreender e se identificar um pouco com todos. Ser empático é ter ouvidos de compreender almas e olhos de ver singelezas.
Ser nômade é abandonar terras que se tornaram improdutivas, mas é também (re)encontrar solos cheios de vida. Ser nômade é participar dos ciclos, aceitar mortes e contemplar a vida, é renascer e celebrar isso. E saber a hora de esparramar abundâncias e festejar os encontros com primaveras.
Além das verdades, além dos julgamentos, além dos entendimentos rasos, além das diferenças, além de tudo que me limita.
Ter a alma nômade é aprender a cortar raízes para poder desenvolver asas e assim, começar a perceber que a vida é uma tela eternamente recolorível.
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