Xampu para lavar almas

Definitivamente seria uma invenção fantástica! Alma lavada, quem não gosta?

De alma lavada tudo fica leve, colorido, suave!

Justiça feita, um reconhecimento merecido, uma boa notícia, um pedido de desculpas aceito, notícias de alguém bem longe, um presente inesperado…

Para quem não espera mas aceita de bom grado, já é uma enorme lavada de alma. As ditas e esforçadas almas que tentam se manter normais.

Já as mais exigentes, as que enxergam o mundo como um servo cumpridor de suas vontades e caprichos, nada passa de simples obrigação. Nada toca, contagia, entusiasma.

Almas oleosas, sebosas, grudentas, seborreicas. Vivem se esgueirando nas lamentações e reclamações. Nada nunca estará bom ou agradável ou até mesmo aceitável.

Almas secas, ásperas, sem vida. Já tiveram seus dias sedosos, mas de tão maltratadas, amarradas e puxadas, resolveram deixar para trás o brilho da vida.

Almas escamosas, com caspas e feridas. Não conseguem se manter mais em unidade, se desfazem a cada mudança de tempo, de humor, de clima, de intenção.

Basta tocá-las para ficar com um pouco do que lhes cai, por todos os lados.

Almas calvas, esvaziadas, com profundos sulcos e vazios. Que não sabem quando tudo começou, mas que foram perdendo e perdendo, até que já não importa mais.

Para todo tipo de almas, um xampu que as lavasse. Mas não, não existe isso.

Mas é preciso lavar de algum jeito, para mudar, para limpar, para não deixar estragar, para salvar.

É preciso dar um jeito de higienizar a alma, desinfetar as lembranças, devolver a elasticidade às sensações, às esperanças, à vida que não quer se entregar.

Todo mundo merece, em algum momento da vida, uma boa lavada na alma. Aquele grito preso, aquela risada guardada, o alívio que arrepia, o soco no ar!

E se esse xampu não existe e jamais irá existir, que tratemos de arranjar uma solução para isso.

Que saibamos, com honestidade e clareza, classificar que tipo de alma estamos e o que conseguimos fazer para limpar e embelezar.

Sem essa de olhar para a alma do vizinho. A nossa própria já é motivo de muito trabalho e muita persistência para mantê-la tão limpa quanto queremos e podemos.

Alma é um negócio muito particular, cada um cuida da sua.

Não tem como emprestar o xampu.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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