Você vive em relacionamentos com pessoas superficiais?

O historiador e dramaturgo russo Alexander Soljenítsin sugeriu que “pressa e superficialidade são as doenças do século XXI”. Talvez ele tenha uma parcela de razão.

Quem se sente confortável em conviver com pessoas que julgam outras apenas com base nas aparências e nos atributos estéticos, e ainda evitam a profundidade nesses relacionamentos? As próprias pessoas superficiais.

A superficialidade é uma barreira para qualquer relacionamento genuíno. As pessoas mudam, se reinventam, não conseguem ficar em um mesmo estado por muito tempo, precisam se adaptar. Quem é superficial aceita menos a inevitabilidade das mudanças, tanto físicas quanto comportamentais.

Toni Coleman, especialista em relacionamentos, define uma relação superficial como aquela em que não há real continuidade, consistência e expectativas de um para com o outro. Nesses casos, ambos os lados não querem construir conexões profundas porque não têm planos de longo prazo.

De acordo com Coleman, relacionamentos rasos são mais comuns durante os anos de escola e faculdade, em que os alunos querem ficar descomprometidos por uma variedade de razões. Ela diz:

“Eles querem alguém para fazer as coisas, passar o tempo, ou simplesmente estão em busca de sexo casual. Mas seus objetivos são imediatistas.”

Lidar com alguém superficial pode ser suportável por um tempo, mas, uma hora, isso cansa.

Muita gente gosta de viver romances com várias pessoas ao mesmo tempo; estes preferem quantidade a qualidade, liberdade a segurança, presente a futuro. Isso pode ser facilmente associado à superficialidade e fuga. Em seu livro Amor Líquido, Zygmunt Bauman apresenta seu famoso conceito, que, por sinal, é bastante pessimista, embora nada utópico.

“Amor líquido é um amor até segundo aviso, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-o enquanto ele te trouxer satisfação, e o substitua por outros que prometem ainda mais satisfação. É o amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele. Na sua forma “líquida”, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade – mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo.”

Para uns, somos mais superficiais e, para outros, menos. Isso depende da circunstância na qual se define quem é supérfluo ou indispensável, inconveniente ou útil em suas vidas.

A solidão é uma consequência comum para pessoas superficiais. Em uma pesquisa recente, pesquisadores da Universidade de Houston estudaram a relação entre superficialidade, autenticidade e solidão. Eles concluíram que ser autêntico não previne a solidão, mas ser superficial pode piorar a solidão e fazer a pessoa se sentir pior.

Pessoas autênticas enxergam a solidão como algo a ser superado, ao passo que pessoas mais superficiais e menos autênticas enxergam isso como um fracasso pessoal. Se a autenticidade não teme a solidão, a superficialidade está procurando-a.

Enquanto um relacionamento superficial tem suas vantagens, também tem seus pesares, e um deles é que a aparência física pode ser mais considerada do que os valores da outra pessoa. O resultado é o esvaziamento de si.

Esse tipo de relacionamento raso pode ser oco, sem vida, infértil, e nunca vai florescer a menos que os parceiros possam encontrar as qualidades (e os defeitos) de cada um. A aparência é importante, mas não mais do que o vínculo emocional.

O fato é que pessoas superficiais se importam menos com o bem-estar e satisfação dos outros, então focam em si mesmas. Elas estão sempre tentando “adequar” o mundo conforme seu jeito e, se não conseguem, viram as costas para todos, como se o problema não fosse delas.

Uma vantagem básica de lidar com a superficialidade é ter a propensão de aceitar diferenças, sejam quais for, nos outros e em si mesmo. Dessa forma, tem-se um filtro para um relacionamento com base no que realmente importa.

Quando superficiais, as pessoas vivem em um complexo de superioridade e, muitas vezes, acabam pecando pela arrogância. Elas não consideram os outros como companheiros de vida, mas como rivais em uma competição de regras postuladas. Em vez de serem amigas para todas as horas, querem comparsas para satisfazerem seus objetivos narcísicos. Seu egocentrismo exagerável as afasta dos outros, eventualmente. Quem não se idolatra desfalece, mas quem não adora a ninguém além de si mesmo sucumbe mais rápido.

Muitas pessoas que amamos têm qualidades superficiais, porém, isso não significa que todas elas sejam, de todo, rasas.

Um certo grau de vaidade é normal e saudável (no sentido de valorizar e desenvolver o senso de autoimagem), mas, quando se age sempre na base da superficialidade, parece que não somos levados a sério, e ainda nos sentimos aprisionados dentro de um perfeccionismo impossível e ilusório, exatamente como viveu o personagem Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Lidar com alguém superficial não é algo fácil de tolerar, uma vez que não importa o quão estável seja a relação, esta é sempre condicionada por termos rígidos daquela pessoa que se julga a melhor em todos os aspectos.

Não há patamar de igualdade em relacionamentos rasos, porque a superficialidade não aceita as diferenças.

Adaptar-se às diferenças, por si só, não elimina as dificuldades de um relacionamento, embora ajude a compreender melhor o outro, o que contribui para o fortalecimento do amor. Com certeza, aceitar as diferenças fará reduzir a frequência com que se forma relacionamentos íntimos com pessoas superficiais.

Duas pessoas se completam quando uma tem algo a agregar à outra. Dois iguais não existem e, se existissem, anulariam-se. Pessoas superficiais mais dificilmente encontram seus pares, pois estão exigindo dos outros algo que está além de suas próprias expectativas. Quando se prendem a padrões idealistas de perfeição, acabam frustradas perante a implacável imperfeição de ser e existir.

Todo mundo tem defeitos. Gostar de alguém, apesar deles, é um sinal de que o relacionamento é mais profundo e significativo do que raso e superficial. Há um valor inestimável em coisas e pessoas tortas.

Uma das coisas mais valiosas do mundo é o amor incondicional. Amar alguém pelo que é, em essência, e não pelo que aparenta ser, ou tenha. Esse tipo de sentimento é mais raro do que se imagina.

A aparência física é muito impactante para nossa percepção, assim como um julgamento de caráter. A diferença é que a beleza tem valor temporário, enquanto um bom caráter vale para todo o sempre.

O pregador inglês Charles Spurgeon bem observou:

“O bom caráter é a melhor lápide. Aqueles que você amou e ajudou vão lembrar de você mesmo no esquecimento. Esculpe seu nome em coração, não em mármore.”

Pessoas superficiais podem se esquecer de caráter, valores e personalidade, ao preferirem perseguir outros ideais como dinheiro, fama, beleza, etc. Seus desejos fornecem impulsos de vida de curto prazo, mas que nunca lhes são plenos. Em resumo, elas preferem a forma do que o conteúdo.

Como refletiu José Saramago em seu livro Ensaio Sobre a Cegueira:

“Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.”

No mundo moderno frenético, muitos estão em busca dos bens errados. É uma geração excessivamente materialista. Obviamente, é muito mais fácil seguir coisas materiais, porque são bens tangíveis para os olhos.

Há uma espécie de medo por trás de relacionamentos superficiais, dado que as pessoas envolvidas não precisam revelar quem realmente são, e então não se tornam tão vulneráveis.

A falta de compartilhamento do ser esconde um certo perigo, que, todavia, todos desejam experimentar: a paixão. Se não há apego, as chances de se machucar são consideravelmente menores. Ao menos é o que parece.

Para os apaixonados, o preço da qualidade das sensações nunca é maior do que a sua disposição em possui-la. Uma relação com baixo nível de partilha é conveniente aos que têm medo de se apaixonar, mas os apaixonados, que já perderam esse medo, estão ocupados demais colhendo as suas rosas espinhosas.

Embora muitos definam uma relação superficial como aquela que é puramente sexual, às vezes tem menos a ver com sexo, e mais com não querer ou não conseguir construir uma ligação emocional e intelectual com alguém.

5 indicadores de relacionamentos superficiais

Toni Coleman identificou cinco tipos de relacionamentos superficiais e os sinais para procurá-los. São eles:

1. A relação na qual duas pessoas fazem atividades limitadas em conjunto e estão envolvidas sexualmente, mas não progridem em um nível mais profundo de partilha ou envolvimento;

2. A relação que as duas partes definem como conveniente. Eles são úteis um para o outro, e atendem a algumas necessidades básicas;

3. A relação que termina abruptamente quando uma das partes solicita, e que facilmente volta quando um dos dois deseja novamente. Quando um se afasta, o outro vai atrás, em um processo contínuo;

4. A relação puramente sexual que envolve festas e curtição, mas que peca em não ter alguma ligação emocional ou intelectual;

5. Qualquer relação em que há uma incapacidade para ambos os parceiros de ser completamente abertos um com o outro.


Aqueles que pensam estar em um relacionamento superficial devem pesar os prós e contras desse tipo de envolvimento. Coleman aconselha as pessoas a seguir em frente, procurar alguém e se abrir, em caso de insatisfação com a situação atual de superficialidade.

“Se a pessoa faz um esforço para aprofundar a relação, mas isso não está acontecendo, então ela simplesmente não encontrou o candidato certo para um relacionamento profundo”.

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Eduardo Ruano
Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.

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