Você ensina seu filho a incluir ou a odiar?

Por Ligia Moreiras Sena

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Todo mundo que tem filhas ou filhos, e mesmo quem não tem mas convive muito com crianças, sabe: toda criança reage ao que é diferente. Se nós, adultos, dotados de capacidade de análise e reflexão, reagimos às diferenças, imagine as crianças…
Diferente de que? Diferente de si, do que é mais comum no meio em que vive, daquilo que vê com mais frequência.
Por estarem ainda em desenvolvimento – cerebral, emocional, cognitivo – muitas vezes as crianças ainda não conseguem frear sua curiosidade natural, bloquear um comentário ou esconder o que pensam – a tal espontaneidade infantil. Ao contrário do que muitos acham, isso não é ruim. Isso é muito bom. E aí está uma das riquezas da infância: agir tal e qual se pensa. Conforme a vida vai passando, vamos aprendendo estratégias e adquirindo ferramentas para “driblar” essa tal espontaneidade e chamamos isso de “viver em sociedade”. Mas penso que, muitas vezes, também se transforma em “viver uma grande hipocrisia“. Criamos máscaras. Dissimulamos. Criamos palavras que confundem, damos a impressão de que estamos sendo bacanas quando na verdade estamos apenas acobertando uma outra opinião. Aprendemos a mascarar o que de fato pensamos.

Muita gente acha que essa espontaneidade e curiosidade natural das crianças, que emerge do reconhecimento do que é diferente de si e dos com quem se convive, é terrível e precisa ser cerceada desde cedo, pois nos coloca tantas e tantas vezes em saias justíssimas.
Eu discordo totalmente. Não precisa ser assim. Não deveria ser assim.
Pois é justamente nesses momentos que reside a imensa riqueza de se orientar uma criança pelo caminho da empatia. De abrir para ela as portas da aceitação, do acolhimento e da inclusão. De iniciá-la nos caminhos da equidade. E aí está um ponto importantíssimo: não da IGUALDADE, mas sim da EQUIDADE. Do reconhecimento de que todos somos diferentes. Todos. E que, ainda assim, temos direitos iguais. Direito de ir e vir. De viver uma vida plena. De amarmos. De sermos respeitados. Cada um segundo sua diferença. E que diferença é o que nos torna ricos. Ser diferente de você é o que, também, me aproxima de você, pois somos iguais nisso, na diferença.

Tenho vivido isso na prática desde que me tornei mãe de uma criança questionadora e que pergunta sobre tudo o que vê. Não crio mentiras. Não trabalho com dissimulações. Não crio segundas explicações para o que de fato está acontecendo. Fiz isso uma única vez, quando nosso gatinho – por quem ela era completamente apaixonada – morreu vítima do ataque de um cachorro que mora em nossa rua. Não banquei a decisão de contar para ela, então com 3 anos, que seu Haroldo havia morrido. Não consegui. Disse que os gatos gostam mais de viver na rua e, portanto, era para a rua que ele havia ido. Arrependi-me para sempre… Na verdade, ela já sabe que ele morreu, porque seu melhor amigo, amigo desde seu nascimento, já contou: “Claclá, o Haroldo morreu, Claclá…“. Eu ouvi a conversa. Ela argumentou que ele estava na rua e seu amigo disse que não. E eu passei por mentirosa – o que de fato fui. E ela, tão nobre, ainda me poupa do confronto com minha mentira… Não contradiz quando eu digo que ele está na rua. E eu passo por ainda mais tola, para minha imensa, gigantesca vergonha… Por uma ironia da vida, alguns meses depois ela perdeu seu avô querido, meu pai. Aprendida a lição, decidi que contaria para ela a verdade. Com carinho, com amor, com palavras de acordo com o entendimento que sua idade permite, mas contaria. Filhos merecem a verdade. Logo após a morte do avô, ela presenciou uma forte crise de choro minha. Daquelas fruto do desespero de se perder alguém muito amado inesperadamente. Não pedi para alguém levá-la embora ou apartá-la de mim. Não me escondi. Não bloqueei. Ao contrário. Pedi que a trouxessem até o quarto, para que ela entendesse, para que eu contasse, com amor, carinho e respeito. Seu pai a trouxe até mim. E então eu disse: “Filha, mamãe está chorando porque estou muito triste“. Ela: “Está triste porque o vovô morreu, mamãe?“. Eu não havia dito. Ninguém havia dito. Mas crianças aprendem ouvindo os adultos até quando os adultos se acham muito espertões em dissimular. “Sim, filha, porque o vovô morreu“. “Tudo bem, mamãe. Eu vou ficar aqui com você“. E então dormimos juntas a tarde inteira…

Sabe… Às vezes nos falta humildade para  reconhecer a sabedoria da infância. Nesse mundo de adultismos, onde as crianças são tomadas como pequenos seres ignorantes que precisam ser adestrados, não se percebe que muitas vezes é ali que se encontra a sabedoria, o discernimento, a simplicidade, que advêm de não se estar viciado na hipocrisia do mundo dito “adulto”.
Nessas oportunidades, quando contamos a verdade com amor, quando os respeitamos por conversar sobre a vida real, ensinamos mais que lidar com a verdade.
Ensinamos que somos confiáveis. Que ali há uma pessoa em quem se pode acreditar.
E também ensinamos respeito às diferenças, empatia, acolhimento e inclusão.

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Vejam.

Quando uma criança de pele branca, que vive com crianças de pele branca, em uma família de pele branca, encontra uma pessoa de pele negra, ela poderá, sim, reagir à diferença (e pego o exemplo nesse sentido, do branco para o negro, porque afinal é nesse sentido que repousa toda a opressão de uma história de preconceito nesse país…). E essa reação é no sentido de: ” Opa! É diferente de mim. É diferente da minha mãe, do meu pai, dos meus tios“, enfim, das pessoas com quem convivo. Mas essa reação ao que é diferente de si não implica em um juízo de valor, entende? Ela não está dizendo: “Opa! Essa pessoa é menos que eu“.

Portanto, se um dia essa criança fizer um juízo de valor a partir de uma simples diferença, foi porque APRENDEU a fazer. Porque, na hora do direcionamento e da explicação de uma dúvida de criança, um adulto que – sim – atribui juízo de valor a uma diferença de cor de pele, transmite esse desvalor à criança.
Notem a diferença:

– Mãe, ele é escuro.
– Sim, filha, a pele dele é mais escura que a sua e a minha, mas é da mesma cor que a de muitas outras pessoas.
– Nossa pele, então, é mais clara?
– Sim, nossa pele é mais clara, ou a dele que é mais escura, não importa. Pergunte o nome dele.
ou

– Mãe, ele é escuro?
– Para, filha! Não fala nada, fica quieta, mamãe te explica em casa.

Por que não lidar com naturalidade com aquilo que é natural? Diferenças não são valores! São apenas diferenças. No primeiro caso, trabalhou-se com a realidade, e a explicação que se dá pode ser aprofundada de acordo com a idade da criança. Não é preciso explicar isso em voz baixa, como demonstrando vergonha pela pergunta que a criança fez, como se fosse um segredo, como tanta gente faz. Não há vergonha em termos cores de pele diferentes. No segundo caso, fica muito claro que há um julgamento de valor. Tanto que a pessoa não se sente à vontade sequer para explicar a diferença na frente da outra pessoa.
Mais um exemplo:

– Pai, elas moram juntas?
– Sim, filha, moram juntas.
–  Como você, a mamãe e eu?
– Sim, como eu, mamãe e você.
– Elas são um casal?
– Sim, são um casal.
– São  namoradas?
– Sim, são namoradas.
– Elas se amam? (afinal, aprendeu-se que casais e namorados se amam, não é?)
– Sim, elas se amam.
– Que bom, né?
– Sim. Muito bom. Amor é uma coisa boa.

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Tratar com naturalidade aquilo que é natural. E quer você queira ou não, nada mais natural que o amor. Não importa entre quem. Amor é amor e é por mais amor que todos lutam desde que o tempo é tempo. Outro dia li uma frase incrível no Facebook: “Abominam os homossexuais dizendo que isso não é natural. Claro. Porque o que é muito natural é transformar água em vinho, multiplicar pão e peixe e andar sobre a água. Super natural, faço isso todo dia”. Esse é o tom da coisa. Chega a ser caricato.
Notem a diferença:

– Pai, elas são namoradas?
– Cale a boca, menin@. Em casa a gente conversa.

O que há no interior dessas casas, desses lares, que não pode ser conversado fora deles? Seria esse o reconhecimento ainda que inconsciente de que se é limitado e se vive segundo orientações bastante rígidas, artificiais, baseadas em ódio, discriminação e preconceito?

Parece bem óbvia a consequência dessas duas formas de se educar. Quando se educa com empatia, voltado para a promoção do respeito, pensando em criar seres humanos para o bem, para o amor, para uma coletividade menos violenta, mais acolhedora e inclusiva, as diferenças são naturais e naturalizadas e sobre elas conversamos muito abertamente com as crianças. Explicamos. Damos exemplos. Aproximamos de nossa realidade. Trazemos a situação para dentro de casa. Mostramos tudo em termos de respeito a essa imensa e rica diversidade que a vida nos proporcionou e sem a qual não teríamos triunfado como espécie biológica. Se bem que nem acho que triunfamos… Veja bem ao seu redor a quantidade de ódio que existe. Esse é o triunfo do bem sobre o mal? Obviamente que não. Isso é O MAL. Ele purinho. Se há de fato um anticristo, ei-lo: no interior de cada pessoa que propaga o ódio às diferenças. Esse sim é o mal que pode disseminar a morte, a tristeza e toda espécie de praga.
Negar as diferenças entre as pessoas ao invés de ensinar a respeitá-las e acolhê-las é o cerne de muitas doenças sociais: a medicalização da infância e da vida em geral, homofobia, discriminação de gênero, de cor de pele, de lugar onde se nasce e vive, bullying, entre outros.
Que tipo de filho e filha você quer criar?
Alguém que veja beleza e amor nas diferenças ou alguém cheio de ódio?
Mais uma vez, a escolha é sua.
Não se abstenha dela.

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