Você é meu réveillon

Eu nunca quis que você entrasse na minha vida.

Nunca sonhei com você aqui ao meu lado todos os dias.

Não quero conhecer o seu mau humor matinal, as suas neuroses, o seu lado cotidiano.

Não quero saber qual é o nome da sua mãe, não quero ver as suas fotos da infância.

Não quero provar sua comida – não todos os dias.

Não imagino a cara dos nossos filhos, não quero segurar sua mão nas ruas, não te quero de corpo tão presente, fazendo papel de marido, opinando na fatura do cartão de crédito, e comendo o último iogurte da geladeira. Não me quero lavando sua meia junto com as minhas calcinhas. Não quero conhecer todos os seus lados.

Porque você é o que eu preciso para romper o comodismo.

Você é a minha agulha, é a ponta afiada que estoura a minha bolha chata e inflamada e ao mesmo tempo você é a minha pena de fazer cócegas na sola dos pés.

Com você eu gosto de ser a outra mulher, não essa chata, centrada, multitarefa, repetitiva. Eu gosto de ser a mulher que não dorme à noite, que se lembra como dar gargalhada, que sabe falar sobre todos os assuntos, que olha pela janela e contempla a doce paisagem urbana e esquece os ciclos de pensamentos viciosos.

Que esvai. Gosto de ser a mulher que se dissolve no tempo e no espaço.

Porque você é meu reveillon. E eu não me importo de fazer 30 aniversários por ano, desde que não sejam 365. Você é a minha ruptura, as minhas férias numa ilha deserta.
Eu gosto que a gente seja a explosão, a catarse – um do outro. A salvação.

Você é fogos de artifício que fazem essa mulher chata sorrir por dias.

Não vou te associar a stress, família, contrato de união instável…

Você é sazonal, é estouro de champagne,
é as sete ondas que pulei depois da meia noite.

COMPARTILHE
Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



COMENTÁRIOS